Longa Canção Para Parar a Chuva


Não costumo sair assim,sem me dar avisos,sem despedir-me de mim.
Mas acontece que tenho as vezes essa ânsia de pegar as malas e sair daquilo que acostumei a chamar de consciência. Sinto-me tão pronta a responder as questões universais,como um grilo a aguentar o gelo.
Eu quero ter a verdade que tem algum gole último de uma bebida fatal.
A paixão das loucas! A frieza dos ermitões! E mais...
Tudo isso que é tanto é pouco para o meu sangue que quer singrar os ares,mas não tem a destreza de dizer o quanto o quer.
Perco um pouco de mim,quando me escrevo,mas ganho muito além,algo estranho,sem cor,certo tipo de substância,que entende meu anseio e torna-se parte definitiva do que sou.
Eu que tenho ruas inteiras não trilhadas,no entanto,já passei por elas tantas vezes.
E cada vez,um girassol multicolorido vai parar na aba do meu chapéu.
As minhas estórias que nunca foram... Essas sim,fariam a História do mundo.
Este sabor de inexistência ou se perferir,o encanto das coisas que poderiam ter sido,a maravilhosa descoberta da imperfeição!
Tudo isso vive em mim,porque enervo a todos quando escrevo.
Queriam me calada e ínútil,guardada junto as traças,comida pelas palavras e devorando-as até não restar gengivas para o sangue.
As palavras que são minha santíssima trindade,são também as furiosas Hirínias que me obrigam a afundar-me no lodo da mesquinhez e olhar os olhos fundos de um lobo.
São elas que salvam o meu dia do Ostracismo.Elas fazem o milagre das minhas horas existindo.
Se sonho,elas abandonam-me.
Escrever é minha maneira de sobreviver.
Não a vida,que essa sobrevive cada dia a si mesma e ao amor humano pela morte.
Escrever é,antes, minha maneira de sobreviver a mim mesma. Caso contrário já teria desfechado o tiro derradeiro e limpado essa nódoa do mundo.
É bem provável que o que eu escrevo seja tão insólito quanto o que sou.
Não desejo nenhum compreendido sobre o que escrevo,muito menos quanto o que sou.
Eu quero o frenesi da dúvida,a substância aflita,a interpelação,o caos e a náusea.
A dúvida.
A dúvida é bela. A certeza é moralista.A dúvida é subversiva. A certeza é absolutista,dinástica,hereditária.
A dúvida é flexível,de vanguarda.
A dúvida é a única verdade que permite desdobramentos,nuances,labirintos.
Eu não me leio,não me insisto,não me afirmo como coisa alguma.
Não sei qual é o meu tamanho,não tenho referências.
Devo medir-me entre Deus e o Pó?
Entre Deus e o Infinito?
Entre o Pó e o Infinito?
Devo ser o grão menor do olho do criador do nada,portanto.
Não há nada de belo em mim. Tudo é redemoinho e e espelhos quebrados.
A beleza sorri cínica,ela é tão real quanto a verdade.
Tudo são vísceras e coragem. A beleza esmorece na tarde fria,vendo seus frutos pretejarem ao relento.
O meu sorriso não esconde nada,exceto a podreza dos dentes e da língua cheia de acrimônia.
Por isso sangro em palavras e tenho hemorragias sem qualquer hora marcada.Sangro em poças,asfixio-me com meus verbos tolos e com idéias repetidas. Nada é novo.
Até o que escrevi é feio,sujo e pobre, sem qualquer sentimento nobre,vivendo na obscuridade,tentando em vão procurar um ouvido atento.
Eu sei que em cima do poço alguém deve estar ouvindo o eco deste sussurro que rasga minha garganta,entretanto,o habitante de cima do poço pode achar que quem está por cima sou eu e que possuo a corda da salvação.
Mas o que escrevo só é milagre em mim,para os outros é pecado e deve ser lido em voz baixa. Poupemos os anjos.

1 comentários:

ana carla 31 de janeiro de 2010 08:34  

Essa doença só é audível aos loucos, aos afortunados poucos.

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