Cólera

                        
                             Luz bruxeleante tingindo um quarto parisiense e sob seu escrutínio um jovem escritor de folhetins baratos suspirava em profundo speelen:
- Não há nenhuma esperança aqui, meu caro. As fragéis linhas que a sustentavam romperam-se há tanto que ninguém lembra-se exatamente de sua forma.
Eu costuma ouvir a todos, os de fala macia e os de timbre arisco, mas eu perdi o discernimento necessário para diferenciar vozes. Exceto no que diz respeito as que me acompanham por dentro. Essas sempre que possível se pronunciam. A vida de alguém como eu nao é muito diferente da vida das floristas e dos bêbados espalhados por todos os botecos e cassinos dessa cidade enferma.
                          Entenda, criança: Todos nós estamos fadados a cólera, a lepra, ao tédio e a corrupção.Não há um nômade nessa vida que não tenha como fim a escassez e a doença. Eu sei que não costumam ensinar isso nos hospitais, sanatórios, escolas e repartições públicas. Mas como sou um louco assumido, posso dizer-lhe sobre todas as coisas que corariam a maçã do rosto da mais depravada e decaída meretriz.
                           A pior notícia que eu posso te dar não se compara as coisas que já sabemos e procuramos ignorar. Não há beleza aqui, rapaz, mas também não há beleza em lugar algum e em pessoa alguma.
                          O que amamos nas pessoas não é a parte que julgamos bela, o que amamos em cada um  é nossa fraqueza exposta em carne e sangue e anunciada em vísceras. O que amamos e queremos é a sordidez e a vilania.
                         Eu cansei de estar aqui, meu jovem... Mas eu continuo por covardia, admito. Continuar é minha maior prova de fraqueza, fraqueza das ditas espirituais, não só nos ossos. E eu te escrevo, agora, as vésperas de partir, porque me veio de repente a ideia mórbida de que ninguém lembrará os meus pesares e memórias quando eu partir e veio-me assim por estalo, a impressão de que caberá apenas a mim a tarefa de limpar os destroços. Não há mais ilusão aqui também, mas não se assuste o que te comunico nesses gestos pobres não é tristeza, que esta já não sinto, é antes um profundo e sofisticado nojo, produto talvez das vielas imundas dessa cidade prostituta. Nojo latente de toda a criatura que sai por aí a disseminar crenças e construir templos em nome de uma honra corrompida. Eu não tenho mais medo, jovem. 

                        No fim de tudo somos todos crianças brincando de imaginar monstros no carrossel do mundo. Eu estou tentanto seguir a linha, estou preenchendo os dias com ácido e poesia, mas a vontade de sangue as vezes subrepuja meus instintos civis. Quando a fera vem a superfície e o caos reina é difícil florescer as acácias.Eu ainda tenho acácia nas mãos, mas a serpente sagrada dorme em sono leve sob os meus pés.

2 comentários:

bliss 28 de abril de 2011 10:13  

ah o cheiro doce que surge quando estamos definhando...

FAMARTAN 2 de agosto de 2011 13:18  

Augusto dos Anjos: "O Homem que, nesta terra miserável, Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera"

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