A Última Pedra


Desde que me prenderam aqui, não sei se é dia ou noite. Sequer sei se dormi ou sonhei.
Lá fora, eles colocam grilhões nas pessoas e as arrastam pra cá. Eu ouço os seus gritos, mas não posso ver ninguém.
As vezes eles chegam perto do meu ouvido, eu sinto o seu toque repulsivo nos meus ombros e então eles gritam! AAAAAAAAAH!
Eu sinto a dor de todas as prostitutas sagradas  e enfermos de guerra com estacas atravessadas, perfurando o intestino. Eu, frágil criatura atrofiada carrego nos ombros os pecados do mundo inteiro como uma mártir sem vocação.
Eu lembro que mamãe dizia que o inferno eram sempre os outros.
Eu discordo. O inferno sou eu. Completamente eu. Em toda a minha crueza e vilania.
E arde em mim a chama de sete Tróias. O desvario de quinze Hécubas, Édipos e Ofélias correm em minhas veias tão rápido como o sangue.
Existem milhões deles lá fora, mas isso deveria ser um segredo.
Eles andam por aí sussurrando que sabem de todos os crimes e pecados do mundo inteiro.
Mas eu não acredito em pecado.
Eu não quero amar um Deus apenas porque me odeio e acreditar em bondade suprema apenas porque eu não sou capaz de concebê-la.
Da última vez que vi minha mãe, Lúcia, era seu nome, ela estava com uma faca ensanguentada nas mãos.
O sangue era bonito, rubro, quente, viscoso e fazia um belo contraste com a minha pele.
O semblante da minha mãe estava carregado e destoava de toda a sua figura angélica, porque ela era mesmo um anjo, um anjo caído que trocou a glória celestial pelo lodo.
Lúcifer, o filho da luz. O portador da luz! E como era bela!
Eu não me lembro quando os tios começaram a frequentar os corredores da minha casa.
Eu não me importava desde que a noite depois de um pesadelo, eu pudesse encostar a cabeça em seu colo.
é curioso como a nossa cama é o lugar mais terno e seguro que existe quando somos crianças. Eu me lembro... tanto.
Eu costumava esconder as moedas que eu roubava da minha mãe, embaixo do travesseiro, era a ação mais torpe que eu praticava naquele tempo.
Não! Eu posso... mas sim! Eu gostava, sobretudo, do som da moedas, era tão bonito e agudo, tão gostoso de se ouvir.
Especialmente quando eu as colocava em um potinho e brincava de arremessá-las de uma só vez ao chão, ao menos assim, eu não precisava tapar os meus ouvidos dos gemidos e gritos de prazer que vinham do quarto ao lado.
Mamãe, por quê?
Eu adorava quando chovia. Minha grande satisfação era quando o chuvisco virava chuvarada, daquelas com temporal, vento e tudo junto, porque assim eu não ouvia mesmo os ecos surdos daquele ambiente profano.
Os sons dos pingos grossos, a escuridão acolhedora do quarto, era como se eu estivesse novamente no útero de minha mãe.
Mas os " Ah!", "Uhmmm", vinham me acordar de novo e de novo... AH!
Mas de manhã, ela toda de branco me sorria, como uma sílfide, como a própria virgem Maria e me chamava para tomar café.
Cada dia, um tio diferente. Tantos rostos e nomes.
Apenas um, eu nunca vou esquecer, ao menos, enquanto essa memória clamar por vida.
Jesus. Era este o nome.
E como o quadro no meu quarto, tinha grandes olhos azuis e estrábicos, era desbotado e com a boca cheia de dentes brancos que ao se curvarem num sorriso se faziam irresistíveis a  qualquer uma.
Então, mamãe apaixonou-se.
Logo vi que ele não era apenas um tio como todo os outros, mas sim alguém por quem mamãe realmente se importava, talvez até demais.
Descobri que ele também gostava da chuva quando em uma tarde, enquanto minha mãe estava no médico, ele me virou sobre a pia da cozinha e...
Oh Deus!
Queima-me como um carvão em brasa essas imagens. Salta-me a pele as marcas do meu despudor.
Padre Horácio já havia me alertado sobre os tios, mas eu já não me importava.
Passei a andar de sais curtas, sem calcinha e larguei todos os meus vestidos com flores e laços.
Cruzava as pernas despudoradamente, com o gesto ensaiado que tantas vezes vi minha mãe executar.
A cada dia, a saúde de Lúcia piorava e minha fome por tomar o seu lugar, crescia.
Não. Eu não  amava  o amante de minha mãe.
O que eu amava era ver o brilho da lascívia faiscando em seus olhos semi-cerrados, o que me afetava feito uma cadela, era sentir-se transtornada e amada na cerne da palavra.
Cada vez mais os potes de comprimido rodeavam minha casa e eu não sentia culpa. Eu via Lúcia morrer, mas eu, justo eu não poderia jamais ter pena dela. Porque ela fez-me assim e porque eu sempre a havia amado e ela apenas cumpria um horário ou um papel sem ser realmente mãe. Tudo mudava enquanto Lúcia ficava mais e mais tísica.
Era 12 de agosto e Lúcia estava em seu quarto, tossindo com um cão cheirando a enxofre. Jesus estava com ela, sua camisa enxarcada de pranto e sangue. Ele mal se movia, parecia submerso em alguma perda ou descoberta.
Oh Céus! Eles voltaram...
Estou tão cansada de estar aqui. Tão exausta dessas memórias! Cansada de Lúcia, Lúcia, sempre e sempre, Lúcia me perseguindo com seu punhal tísico, infectado, obceno! AH! TIREM-NA DAQUI!
Eu não consigo ver, meu estômago dói!
Depois de tudo, ele não me procurava mais, sequer olhava-me quando eu passava rente ao seu corpo pelo corredor.
Eu não podia mais suportar sua indiferença ou invunerabilidade a mim.
Dia 16 de agosto, Lúcia dorme em seu quarto após mais uma violenta crise de tosses Jesus está sentado no sofá, assistindo ao noticiário. Eu vou até ele e saboto suas resistências, ele diz: "NÃO!", "ISSO É ERRADO!" e eu solto a réplica: " QUANDO FOI?"
Eu subo por entre suas pernas e entrego-me a ele sem sequer tirar as saias.
Não sinto prazer, de fato, acho que nunca senti, nem tampouco dor. Apenas um golpe duro e fatal nas costas, seguido de uma puxão que me faz cair sobre o chão áspero e enterrar mais ainda a faca sobre minha pele suada. Tremo.
Levanto os olhos. Lúcia parece a própria imagem do inferno ou da falta de Deus.
O sangue desce pelo seu vestido e pela sua boca, o dela e o meu, como no parto, mas agora não existe cordão umbilical que nos una, apenas um cordão invisível de silêncio.
Daqui de onde estou ainda posso ouvi-los conversar.
Ele diz: "Você matou a minha filha, a nossa filha!"
Ela responde: " Eu a pari sozinha, também foi só eu que a criei, então, tinha o direito de tirar sua vida!"
Ele engasga  diz: " Ela nasceu do meu esperma e o corpo dela recebeu o meu fluido, ela era minha!"
Ela enxuga o sangue da boca com as costas da mão: " Está feito, eu nunca deveria ter deixado você olhar pra ela, agora, venha, tire o corpo de Madalena daqui."
as vozes... as vozes... as vozes! AAAAAAAAH!
Elas não me deixam em paz. Nunca. Nem se fecho os olhos.
Aqui é o mais próximo que consegui chegar de mim mesma e eu receio que eu não possa atirar a pedra que acertaria os pecados de mamãe.

1 comentários:

Felipe 6 de maio de 2010 12:38  

tremi, tive espasmos, gozei e desci ao inferno lendo isso. você teve poder sobre mim durante os dez minutos em que parei para ler isso!

claps.

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ahn?

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