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Janela




Meus olhos ardiam novamente.Coçei com a palma da mão,procurando com aquele gesto instintivo afastar o sentimento de que o ônibus já estava perto de seu destino.Sim,o destino era tão somente do ônibus,porque eu não tinha destino,tinha apenas uma trajetória indefinida,pela qual eu me arrastava mecanicamente,como uma lesma.
E foi assim,mecanicamente,que olhei para a janela suja e por que não dizer,triste? metáforicamente,claro.
Objetos,grande mistério.Não sentem,aí está sua mesquinhez e sua grande vantagem sobre nós.

A janela me dizia tanto,me dizia muito mais do que a pobre professora que debilmente procurava entreter com seus causos uma jovem pálida e ranzinza. eu.
A janela me dizia que lá fora havia vida.Não a vida exageradamente alegórica e espalhada das Drags,nem decerto, a alegria rala e frustrada das pessoas ou seriam vultos, que passavam por mim e pareciam fartar-se em suas concepções frágeis da vida que levavam.

Aquela janela medíocre,ocre,empoeirada com poeira que não era encantada,aquela janela quase profana,que mostrava os sonhos de milhões desfilando em fileiras pelos meus olhos alérgicos e cansados.
Aquela janela era meu pacto silencioso com o mundo.
A janela era o contato único com a realidade.
A janela sustentava-me.
A existência de tudo passava por seu olhar revelador.
A janela me trazia lembranças genuínas,consideravelmente mais doces do que a voz da professora dos causos.
E menos terrível do que todas as faces que o mundo já ousou mostrar-me.
A janela era a pequena relíquia suja que me salvou do brilhante mundo para o qual nunca fui preparada.


imagem : John Waterhouse

Prolixa



Era triste e pálida
Era fria e tácita.
Não tinha fleuma,era apenas prolixa.
Suas palavras surdas,
Sua sensibilidade;
Apenas acúmulo de informação.Era granito.

Apenas prolixa.
Aquela que nunca julgou ser;
E quis entretanto, possuir a si própria.
É abstrata,cínica e prolixa.
Quase um crime.

Quase nada,prolixidade apenas.
Vestindo uma alma nua,servil,fria.
Nem mais um pio.

Nem mais nada para explicar o repúdio,
A falta de boa caligrafia,
A ausência de freios na cabeça e
o excesso de arquétipos no olhar.

Ela é prolixa,abstrata,cínica,vazia.
Nada mais.


imagem: Lady of Shallot -John Waterhouse

Sagrada Inutilidade





Tenho medo das coisas banais.
Diferente de ume
Abutre ao destender as asas e lançar-se ao vôo;
O abutre não tem consciência de sua natureza.
Ele não deseja ser um canário.
Acaso ele indaga a sumária razão de ser um abutre?
Agora que tenho dentro de mim,os vales e os desertos,
é difícil ter sangue.
Agora que os olhos tocam o infinito,
é doloroso verter lágrimas.
Quando tudo se torna irreal,
Os vagalumes tranformam-se em estrelas e a claridade incomoda mais do que o breu.
As lutas mais vãs sao travadas no solo minado das emoções,
que como cavalos selvagens guiados por suas intrépidas
Amazonas,pisoteiam a derradeira planta celeste.
Nós destruimos aquilo que mais amamos.
Empurramos a nós mesmos por escolhas imprecisas.

Quando a noite se estende;
É mais fácil libertar as redomas que encarceram os gritos.
As verdades veladas parecem querer escapar,dominar o
Universo e comungar com Deus!
Esse Deus das estrelas e do coração humano.
Esse Deus das montanhas e do relâmpago.

Não o entendo!

Talvez...ele não se entenda também,já que me fez não-entendedora de nada.
Haveria ele de se entender?

Talvez a
Criação tenha sido um arroubo,uma decisão tomada sob pressão!
Poderá isso,responder a todas as questões que formulo no meio período de dormir?

Estou apenas filosofando.

A
Verdade é que sou sempre aquela que quer partir e fica,fica indefinidamente.
Não é falta de vontade.
É comodismo.

É a
Percepção de que a segurança é melhor que o indefinido seguir,
É a
Legitimidade da pouca importância de ser constante.

ahn?

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