Postado por
AliceHolovati
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Num dia de junho, eles olharam-se.Se fosse abril ou dezembro tudo correria como todos os dias banhados de rio.Os meses tem uma certa vida que lhes é muito particular.
Sendo junho,todavia, existia uma febre a velejar nos olhos dos jovens.Suas íris cruzaram-se como duas notas perdidas até então,que encontrassem uma a outra e formassem uma melodia.
Não era fácil amar num dia assim,um daqueles em que o mistério o ar e deixa seco os lábios os viajantes.
De fato,chegaria o tempo de resgar as velas,restando um vento de curvar a espinha.
Mas ele a viu entre todas as suas angústias e ela assemelhava-se a um hiato no tempo.Ela era uma pausa brusca na respiração,uma mão serpenteando sem rumo. E ela não percebia.E ele precisava dela.
Será que tudo não passaria,por fim, de um espectro invísivel que desapareceria deixando suas mãos caídas e seus pés em órbita?
Logo,riscar o papel não era mais prioridade.Descobriram tintas novas e tons brilhantes que ofuscavam a mente.
Possuiam o universo todo quando se alojavam um no outro. O dia nascia feliz por compreender a natureza e deixá-la existir. Chegou o verão.
Não aquele do ano. O outro,que nasce das células. Chegou,soprou tudo.
Era necessário ter fome de vida e comê-la exaustivamente até vomitar os dias e meses.
Era preciso acreditar no amor,ainda que na contra mão ou numa estrada de pranto e pó.
Ele tinha tudo dela nos lábios e sua cútis tremia a cada toque e palavra,fosse morna ou fria.
Ela era a areia que queimava como salamandra.
Ela era cada meio sorriso afetado. Cada grau de seu magnetismo e de sua sensualidade cáustica que gerava um domínio surdo em cada pessoa que a via.
E ele a amava.
Amava porque queria ser suas mãos e dentes,porque precisava tomar o ar ao seu redor.
E porque não poderia jamais odiá-la,amou-a com a fúria de um gladiador que depende de um aceno de mão.
Seu amor rancorizado era inevitável como um golpe último.
Ele a amava com todo o ar de seus pulmões e sobrava pouco para si.
Não existe amor na paz. Tão logo,ele descobriria isso.
Apesar de estancar os ferimentos provisoriamente,o algodão não cicatriza as chagas.
É preciso flamejar ou nunca será junho outra vez.
Postado por
AliceHolovati
Falta-me um sobrenome.
Falta-me uma estória retirada de um best-seller imundo.
Eu tenho água nos pés
porque meu banheiro
não está sempre seco,
Eu não quero sua simplicidade bibelô
pra ser exibida por caridade.
Posso correr avenidas em mim
e chorar verde em um céu translúcido.
Você não.
Postado por
AliceHolovati
domingo, 3 de janeiro de 2010
Eu preciso de cada gota sua,
Antes que tudo fique branco e eu não possa mais identificar se o céu mudou
Eu preciso porque se não minha vida será apenas essa canção inacabada
Como são todas as canções de todos os lugares do mundo
Eu preciso de cada verbo vindo da sua língua tácita,
eu preciso de cada instante da sua aura incerta
eu preciso ter você quando eu quiser
eu preciso de todas as pessoas em uma.
Eu preciso da tua dualidade ritmíca,incandescente e do seu desrespeito
Não me deixe agora,quando eu posso desistir de tudo
e você sabe que eu posso desitir de tudo.
Dê-me uma dose,porque eu estou na pior.
Injete sua violenta poção nas minhas artérias,não vou resistir.
Sinto tremulamente a falta consentida da sua beleza helênica,da sua graça vulnerável.
Então você me olhará quando eu estiver ausente?
Dirá que me amava quando eu estiver perdida numa nuvem de rancor?
Está quente e eu rezo pra piorar.
Diga-me, você estará na curva?
Postado por
AliceHolovati
sábado, 2 de janeiro de 2010
Então,em cima do piano havia um copo de veneno,
mas ninguém morreu e não poderia haver culpados se a causa da culpa não existisse.
E todos se culpam o tempo inteiro e não se culpam quando deveriam.
Você acaso sabe o que pessoas sujas como eu fazem a noite?
Você tem certeza que aquilo que eu leio em você é certo e justo? não é.
Depois que vi o infinito,não quero ver menos.
Creia-me,não posso ter menos.
Postado por
AliceHolovati
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Estava doente.
Quanto a isso,não restavam dúvidas.
Mas era tão jovem,tão doce,tão cedo,que pensaram que a doença pudesse esvair-se,como qualquer problema cotidiano.A doença,no entanto,era mais forte que a sede e calava suas frágeis resitências.
Ela não aprendera como ser imune a vida.Ser imune a vida é algo que só é fácil para os coveiros e os santos,apesar de alguns enganos.
Ser imune a vida é próprio dos psicopátas de vitrine e das Igrejas.
Ela não tinha medo da doença,pelo contrário,agora ela podia receber bolo de mel e chá fumegante na cama,enquanto seu irmão ensaiava passos trôpegos na neve,a caminho da escola.
Ela não podia atinar o motivo pelo qual todos ficavam solenes e graves quando a viam e sentavam para conversar com ela a beira da cama.
Queria dizer a eles que já aproveitara tudo da vida e que agora, só queria saber das nozes que su vó a trazia todas as sextas a noite.
E dizer também que não iria para o céu,porque já estava dentro dele e sempre esteve e que o verdadeiro "Inferno" era o quarto onde havia ficado como uma ermitã por dois meses,onde o "Diabo" vestido de azul e escondendo a face (como todos os verdadeiros demônios fazem) com uma máscara entrava para lhe aborrecer.
Ela aguentou tudo pacientemente,com o tipo de paciência tão sensata que chegava a parecer mórbida.
Ela apenas jogava cartas e dados com a Morte,que segundo ela,era um moço com um constante ar zombateiro de quem acabou de roubar um pedaço de queijo da geladeira e com um sorriso pintado de infinito,que usava uma gravata borboleta amarela,um terno azul e um barco de jornal na cabeça.
Sempre que a menina ganhava o jogo,a Morte lhe concedia um dia a mais.
Ela era boa nisso,por isso colecionava dados e dias.
-A vida depende desses jogos com a Morte. - Dizia com semblante carregado,para logo após cair em um riso convulsivo.
Ela sabia que ía morrer.
Não tinha porém a certeza tola dos doentes e sim a certeza óbvia que todos nós temos ao morder uma maçã e saber que ela expelirá seu suco agridoce em nossos lábios.
Acaso alguém ousaria dizer que já mordeu uma maçã seca?
As maçãs estão sempre a chorar.
Ela,entretanto, não chorava.
Mesmo sabendo que a vida brilhava em cascatas lá fora.
Suas lágrimas eram tão essencialmente belas,que ela as guardava para si.
Ficavam ali,presas entre suas retinas imóveis.
Somente ela tinha posse delas e possuir era algo que sempre a encantou em particular.
Possuir tudo quanto lhe era permitido.
Lastimava apenas que não pudesse possuir as gotas de chuva de Maio,por que por mais que pudesse retê-las entre as mãos,elas não se tornariam cristais nem sequer tingiriam a ponta dos seus dedos de azul.
Então ela contentava-se em tê-las sob o olhar por um segundo doce,do qual resultaria a queda das gotas e um dia, a queda última das mãos.
Mas a pobre sabia que indubitavelmente,morreria.
E quem disse que conhecer a Morte prepara para a vida,não conhece nem uma nem a outra.
Dentro daquela abstinência permanente do desconhecido,
Vivia ela.
Confinada no território íngreme do seu espírito turbulento.
Aprendera a conversar com bonecas sem cabeça e escutar ainda que sem ouvir,suas canções de natal.
Aprendera a ver a neve estender-se até onde permitia seu olhar.
A neve era um convite tolo a felicidade.
Seus pés não cediam ao frio,podia sentar-se a beira de um lago congelado e afundá-los nos flocos de neve,sem que isso alterasse em nada sua temperatura.
Nunca fora passível a dor.
Sua aceitação a morte,era cercada de um misterioso respeito a vida e as lágrimas.
Porque,para a menina, ocupar espaço no mundo cheio de grandeza,já era algo memorável.
Vir ao mundo e aspirar seu hálito soberbo já compensava a dor de ter nascido.
Nascimentos são tristes.
Morrer é fácil.
Não existe dor após a dor.
Quando se morre,acaba-se.
Quando nascemos,ganhamos o mundo de presente... sem pedir...
Tatear a vida enquanto cresciam as hortas e as crianças.
Ter essa fome de qualquer coisa e qualquer coisa fugir.
Ter este sopro de vento na cabeça e um cofre ,no lugar de um coração...
Ainda que míudo,inócuo,sem tê-lo realmente.
Mas a desgraçada sabia que ía morrer e por isso sorria,ocultando nos lábios a fragilidade do ar e da vida.
Seu sorriso era o último rastro de mistério em um mundo revés e verde.
Sem o sorriso não existiria o sol,a maçã,não existiria a fome e a saliva.
Nem sequer existiria o existir,então todas as existências não existiriam e não existir deixaria de existir,inexistindo eternamente.
Postado por
AliceHolovati
Eu não me contenho em mim,
As vezes tenho vontade de escapulir pelo meu ouvido
E entrar vagarosamente pelas cordas de uma harpa
Sem interrupções,invenções ou aborrecimentos dos dias de hoje
Sem o sorriso treinado e polido para impressionar.
Só estar lá,
Tendo como única companhia,
O som e o eco.
Sem as mentiras dessa gente tão sincera e justa.
-Mostre-me sua cara! - Eles dizem.
E eu replico:
-Mostre-me seus rins e seu diafragma.
Então saberei se suportam a força do grito.
Porque eu sou esse grito vibrante,
Sem ritmo algum,
que sai cético e reticente,mas que não posso reter.
Postado por
AliceHolovati
Quanto vale a vida?
Sentir o vento? Sair de si?
Toda vida sonhada que resultou em vazio?
A beleza presente no aspecto horrível.
Estética.
Ah! Se houvesse plástica cerebral!
Se um bisturi pudesse expelir de dentro da gente o feto da ignorância...
Talvez aplicar botóx para retocar e distorcer as marcas da falsidade e da falat de ética.
Comprar felicidade! O ingrediente principal da fórmula secreta da cerveja.
Vencer a repugnância e atravessar os becos e subúrbios vazios dentro de si.
Trombar com o seu medo que encosta um revólver na sua cara.
Sim,agora você desejaria um silicone que aumentasse o seu nível criativo.
Ética?Poética? Política? Anti-arte?
O bom mesmo é a Estética!
Que transforma o horrendo em belo,
Tão belo que não há espaço pra mais nada.