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AliceHolovati
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Você deixou moedas no meu tapete.
Então, você bateu a porta e deixou a batida ecoando nos meus ouvidos por horas.
Você deixou marcas invisíveis a olho nu na minha pele.
Então, você escondeu as minhas palavras embaixo do travesseiro pra que não fugissem.
Você não me disse muitas coisas.
Então, eu tive que escrevê-las ou desenhá-las.
Você atingiu todos os meus poros.
Então, eu tentei arduamente enxergar além dos flocos de neve na sua retina.
Você inventou novas luas, novos sóis.
Então, eu tive que acreditar nos astros.
Você coloriu palavras, desmitificou outras e duplicou milhões de sentidos.
Então, eu desisti de todas as lógicas e voltei ao meu país de origem.
E você nunca soube de nada, você ainda não sabe de tantas coisas.
Então, sem saber exatamente por quê, eu deixei que você soubesse.
E você desde então.. costuma deixar as malditas moedas ou qualquer coisa assim, para eu não esquecer.
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AliceHolovati

As vezes o que te resta é uma lágrima seca atracada na garganta, mas é uma lágrima instintiva, que saí sem buscar qualquer explicação plausível.
Talvez, ela venha em função de um desejo frouxo de ter trazido o objeto raro que te protegeria da noite.
O meio sorriso que por vezes saí dos rostos submersos em diáfanas nuvens de maio, não é de singela alegria mas de constante resignação.
Mesmo as palavras tingidas por rubra tinta são medidas falhas nesse calendário torto.
E eu perdi a mão, o bonde, mas não a esperança.
Dias haverão em que andando pelas ruas sonolentas, poderei eu destinguir uma pressa de um anseio e quebrar as métricas da minha cabeça.
De todos os remédios, a tua solidão foi o que mais te ardeu a garganta, o que mais te fez perder o ar e gemer em cólera. Sei que não se pede para ser hipocondríaco, mas quando se o é.. nenhum sentimento externo te salva do azedume que vigora em sua bile negra.
Bem, eu poderia ter avisado, mas eu já não poderia exprimir, estando no ato III, a verdade que faria suas pálpebras estremecerem em convulso choro.
O que me cabe é só esse senso de superioridade anônima, de remetente de cartas com endereço suspeito e de ser sempre a procurada por crimes que não cometi.
E o que me cabe, me faz feliz.
E o que me faz feliz é estar sempre em fuga, em agonia, esperando mais e querendo que esse mais nunca escape.
A lágrima rola frágil, como minha alma escorregadia e na fragilidade das almas, viceja a poesia, a prosa e a raíz de todas as canções.
A fragilidade faz existir vida e a vida (em si) determina o destino de todas as lágrimas.
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AliceHolovati
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Passei por algumas luas tentando decifrar códigos e toda a sorte de sistemas metalinguísticos.
Briguei com Saussere, fiz e desfiz laços.
Eu vi a morte, o asfalto, as feridas apodrecidas e chorei sem emitir som.
Eu quis a dor, lancei-me sem mandamentos em seus braços.
No abismo, a providência deu-me asas rubras.
Morreu em mim um pouco da poesia silenciosa com que me alimentava, tal como beija-flor na seiva.
Não fiz madrigais, odes, canções, sequer trovas.
Abandonei as Hespérides, adentrei o Hades, o Valhala.
Sorri para máquinas.
De frases mal formuladas e sem coesão e coerência bebi epopéias.
Descobri países no mapa e nomes para o vento, e mais..
Descobri imagens para os azulejos do chão e animais para os ladrilhos do céu.
Queimei karma, ouvi teorias adversas, rompi auroras, bebi sereno e néctar na madrugada das almas.
E a náusea não atormenta mais.
Mas o que sinto e é intrínseco e inerente a minha condição de criatura errante, simplesmente não tem nome, nem cor.. não tem textura.
É como um purgatório de horas, mas dentro do paraíso.
Eu não quero que me vejam, eu não quero vê-los.
É como não terminar uma canção, tendo o intento de fazê-lo.
E todos vem a música, ouvem a paisagem sublime e amarela ao redor, multifocal, sólida, real.
Mas eu, vejo as bolhas azuis ao redor, isso ninguém nunca verá.
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AliceHolovati
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Talvez eu não tenha inteligência suficiente para escrever um tratado sobre a cólera e talvez eu nem queira ter.
Talvez eu esteja apenas esperando por ondas de alta frequência de uma descarga elétrica.
Talvez eu nem saiba o que isso quer dizer.
Talvez eu tenha sentido falta do vento.
Talvez eu tenha alimentado-me este tempo todo de auto-piedade e da caridade alheia.
Talvez tudo o que eu digo seja uma tentativa inerte de preencher os espaços em branco.
Talvez eu esteja pintando um mundo surrealista ao meu redor.
Um mundo visto sob a ótica de Magritte.
Talvez eu esteja erguendo essas muralhas apenas com meus dedos em chagas.
Talvez eu devesse parar de transformar tudo em cinzas.
Talvez eu devesse colher as flores azuis e perseguir os pássaros lúgubres.
Talvez fosse melhor eu ter virado a esquerda.
Talvez fosse melhor tapar os ouvidos em meio a algazarra.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não repetir,
Não mistificar,
Não sangrar,
Ou sangrar.. apenas no silêncio da minha garganta.
Talvez eu pudesse vencer meus espaços e elevar-me.
Subindo e planando até onde os olhos e sóis se dividem em moléculas soberbas e humildes,
Soberbas porque nelas está a miragem da vida e humildes porque são infímas diante da besta-fera do mundo.
Subir sem pensar na Terra, este casulo do infinito.
Elevação.
Sem pressionar o tempo pra pensar que depois os relógios enloqueceram,
E eu estarei com as mãos tintas, podres, disformes e famintas.
Escavação.
Pare de mexer com meu espaços extáticos.
Só.
Talvez.
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AliceHolovati
quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ela não era uma mulher.
Não era um homem.
Percebo hoje, que ela gostava de cultivar certos maneirismos andróginos.
Ela gostava de marrom, embora seus olhos fossem poças petrolíficas.
Ela lia e translia Rimbaud, mas gostava de dizer que os franceses eram uns porcos impertigados.
Manchas na parede eram suas contadoras de fábulas, e como dizia a fábula...
Ela queria conhecer Sherazarde, muito embora eu pense que ela sempre quisera ser Sherazarde.
... Ou Verlaine, ou Napoleão, ou Lennon...
Todos eram seus joguetes típicos.
Um dia, eu a conheci.
Ela não tinha cores estranhas no cabelo e nem fedia a esgoto, mas é como se a sensação fosse essa.
Ela pediu-me fogo e eu a olhei por trás dos óculos naquela noite de neblina e ela piscou os cílios antes de encarar o ar frio.
Soltando uma baforada profana, ela semi-sorriu pra mim, antes de pegar o isqueiro e acender o cigarro com grandes ares de agente da máfia italiana.
Agarrei meus braços e acarinhei o frio volúvel.
Ela? Simplesmente largava-se no gosto de tragar.
E tragava com fúria, como não o faria nenhuma dama, como só faria um outro homem.
"A noite é sempre assim aqui?" - Ela perguntou-me com os olhos apertados pela nicotina.
"Assim como?" - A encarei reticente.
"Tão sem esperanças...?" -Ela suspirou grave para em seguida quebrar-se em uma gargalhada desproporcional ao ar austero e enfadonho da noite.
"Onde está indo?" - Perguntei depois do inesperado estouro.
"Não sei... quê me importa?"
Ela fez-me cativo ali.
A acompanhei naquela viagem.
Em todas as demais provavelmente.
Ela fumou muitos cigarros e eu comprei uma coleção de isqueiros.
Pouco me importava seu ar esquiziotípico, sua figura andróide-andrógina, se ela vestia-se como um cara desleixado, seu mau-humor e seu mistério latente.
Depois de sair da terra das mil e uma noites sem esperanças, eu a deixaria ser o quisesse.
Sherazade, Verlaine, Napoleão, Lennon.
Desde que eu pudesse segui-la e ser seu sultão, seu Rimbaud, sua Josephine, seu McCartney... ou apenas o fogo do seu cigarro barato.
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AliceHolovati
sábado, 14 de agosto de 2010
Diziam que ela deveria se prevenir, usar casacos pesados e fugir das sombras que broqueavam o caminho.
Diziam que ela deveria ter fleuma, andar sobre ovos e manter a voz calma.
Nunca lhe disseram que o caminho poderia se bifurcar, nunca sequer pensaram que ela poderia escolher por vontade própria se ferir.
Então, ela escreveu sobre o amor e sobre como os homens enrolavam-se em dedos e sílabas para amar seus iguais, ela escreveu sobre uma curva, escreveu sobre a pessoa que a estaria esperando quando lá chegasse e no que ela mesma seria quando a encontrasse.
Mas era seu compromisso ser fiel a métrica e a rima, então ela chorou.
Porque nunca houve alguém na curva, tudo existia nas linhas mal traçadas de alguém condicionado a inventar a imagem mais bela.
E por achar bela a tal imagem, ela pensou que convenceria os outros, ela acreditou que os outros diante da perfeição a amariam por tê-la criado, mas nada parecia ser menos que disfuncional e violento para ela.
Ela jurou que não acreditava em nada que escrevia e continuou escrevendo cartas sem destinatário, continuou pintando seu rosto e enxugando seu pranto ressecado e sorrindo para a luz branca, brindando a todos com palavras de prodigiosa verdade, que eram todas mentirosas e desesperadas, porque pediam um ouvido que nunca existira.
Acolheu-se então no calor inapropriado de alguns braços, na luxúria provínciana de rapazes sonolentos, na caridade dos justos.
Em meio a turba de semelhantes indigestos, ela alimentou-se, e todos os restos de ternura eram como última esperança em mar de apatia.
Ela aprendeu que nunca poderia alimentar qualquer ideia de que a beleza tinha outro fim que não a morte, a morte... a morte era sua conhecida de longa data, sua amiga, seu pão, seu veneno lento e corrosivo.
Ninguém poderia jamais entender a vida sem encarar a frio os olhos âmbar da morte.
E tudo morria nela, como o sol que debanda ao entardecer e nos deixa com um gosto vazio do que seria a eternidade.
A curva que nunca chegaria, a fez parar no meio do caminho e aquela que quis muitas pessoas em uma só, terminou servindo chá para seus leitores invisíveis e mudos.
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AliceHolovati
quarta-feira, 28 de julho de 2010
"É que algum vento montanhês da Noruega contou que a liberdade é triste, mas é leve." - Ophélie - Arthur Rimbaud.
Era noite alta quando a pálida Ofélia levantou-se de seu leito casto para encontrar a doce proteção da lua.
As coroas de flores multi coloridas pendiam de suas mãos delicadas e o ar diáfano da noite balançava seu vestido de cambraia com o vento furioso que soprava da Noruega para a Dinamarca.
Ouviam-se pássaros noturnos, como harpias cantando no abandono da escuridão.
A bela e gentil Ofélia, finalmente livrava-se de sua alma pesada e suja e frágil.
No braço escuro das sombras noturnas ela via a face da Deusa e sentia seu espírito voar no manto de estrelas abandonadas no palco do céu.
Ela queria dançar como uma Ninfa, ela queria sugar o néctar do fruto proibido como Perséfone fez quando no Hades, ela queria lançar-se as águas como Narciso.
Com os olhos transtornados, ela se aproximou do lago de águas verdes que ficava embaixo de um salgueiro chorão, ainda fitando seu rosto fantasmagórico no espelho d'água, julgou ouvir voz rouca e danificada de seu pai ao longe, julgou ouvir um último grito lúgubre de adeus que logo cessou.
Juntando suas coroas de flores... rosas, violetas, arrudas, amores-perfeitos, violetas.
“ Como pode alguém com violetas na mão ser triste?” perguntou ela para um coruja.
Agarrando com delicadeza as coroas que lhe caiam das mãos, ela subiu até o ponto mais alto do salgueiro, cantava antigas canções proféticas, canções de tremer o céu e de fazer chorar os anjos do paraíso e as dríades que habitavam as árvores e urbes do bosque esquecido.
“Ele se foi, não voltará, de linho branco era sua cabeleira, baixem as tampas, ele não voltará”
A cada gota de sua canção, sua voz enfraquecia e virava um ganido gélido preso em sua garganta áspera.
Sua alma que voava mais além queria pertencer aquele lugar sacrossanto, aquele lugar pagão, livre e mesmo assim maldito.
“Minha alma vai com o rio, vai além do rio”
E como Zéfiro era seu amigo de longa data, o ventou suspirou apenas uma vez, antes de entregar a bela donzela aos cuidados das nereidas do lago profundo.
Os vestidos como velas afundavam e sugavam a doce criatura, qual ninfa, ela parecia dada ao elemento e com toda a suavidade que fora sua vida, seu sono eterno não foi um suícidio e sim o adentrar para um mundo edílico, onde qual rainha das flores, ela flutuava em um carro puxado pelas mais belas criaturas do lago.
Seu amor aviltado, sua dor dilacerante, ficaram na superfície do lago silencioso que em seu berço guardava a formosa Sílfide.
As pessoas que vieram depois nunca mais saberiam o que é beleza, porque a beleza havia se matado naquela noite nas montanhas da Dinamarca.