Sem Resposta


Um dia, sentada em um lugar qualquer, solto no espaço, senti um amor infinito por
amar, em si.
Um carinho que começava e acabava em mim, sem que ninguém desse conta por ele.
Porque eu supunha que amar bastava, porque eu imaginava que amando eu deixaria
de pensar no que sou para mim ou ainda, no que sou diante do mundo. Afinal, não é
essa a grande virtude do amor, a aniquilação do que somos em função do outro?
O fato é que sempre fui muito triste de dentro pra dentro e que também assim fora,
porque sempre vi a vida passar de trem e apenas lhe estendi as mãos em um adeus
caricato.
Eu sorria para fugir de mim e de minha eterna busca e a cada passo que dava surgia
uma nova Esfinge ofuscando minha visão.
Por que eu, entre todos, deveria pintar o amor com cores trágicas, entre uma valsa de
Chopin e uma pintura de Debret, ao invés de aceitá-lo?
E por que, deveria aceitar a admiração cínica e oportuna e fazer-me de lagarto por um
olhar de afeto genuíno? Por que deveria caber, justo a mim, o papel irônico de besta
brava de mim mesma?
A cópia estarrecida do escárnio e da zombaria que eu sou, me condenava todos os
dias a um flagelo invertido.
Porque eu queria punir os outros por não terem ciência das coisas que tampouco eu,
entendia.
Porque apesar do auto-asco e da vergonha interna, eu desejava que me olhassem com
bons olhos, que aceitassem essa parte de mim que está sempre a espera de uma nova
expectativa, que vive apenas pela ânsia de sentir mais do que pode e de dizer menos
do que gostaria.

A Última Pedra


Desde que me prenderam aqui, não sei se é dia ou noite. Sequer sei se dormi ou sonhei.
Lá fora, eles colocam grilhões nas pessoas e as arrastam pra cá. Eu ouço os seus gritos, mas não posso ver ninguém.
As vezes eles chegam perto do meu ouvido, eu sinto o seu toque repulsivo nos meus ombros e então eles gritam! AAAAAAAAAH!
Eu sinto a dor de todas as prostitutas sagradas  e enfermos de guerra com estacas atravessadas, perfurando o intestino. Eu, frágil criatura atrofiada carrego nos ombros os pecados do mundo inteiro como uma mártir sem vocação.
Eu lembro que mamãe dizia que o inferno eram sempre os outros.
Eu discordo. O inferno sou eu. Completamente eu. Em toda a minha crueza e vilania.
E arde em mim a chama de sete Tróias. O desvario de quinze Hécubas, Édipos e Ofélias correm em minhas veias tão rápido como o sangue.
Existem milhões deles lá fora, mas isso deveria ser um segredo.
Eles andam por aí sussurrando que sabem de todos os crimes e pecados do mundo inteiro.
Mas eu não acredito em pecado.
Eu não quero amar um Deus apenas porque me odeio e acreditar em bondade suprema apenas porque eu não sou capaz de concebê-la.
Da última vez que vi minha mãe, Lúcia, era seu nome, ela estava com uma faca ensanguentada nas mãos.
O sangue era bonito, rubro, quente, viscoso e fazia um belo contraste com a minha pele.
O semblante da minha mãe estava carregado e destoava de toda a sua figura angélica, porque ela era mesmo um anjo, um anjo caído que trocou a glória celestial pelo lodo.
Lúcifer, o filho da luz. O portador da luz! E como era bela!
Eu não me lembro quando os tios começaram a frequentar os corredores da minha casa.
Eu não me importava desde que a noite depois de um pesadelo, eu pudesse encostar a cabeça em seu colo.
é curioso como a nossa cama é o lugar mais terno e seguro que existe quando somos crianças. Eu me lembro... tanto.
Eu costumava esconder as moedas que eu roubava da minha mãe, embaixo do travesseiro, era a ação mais torpe que eu praticava naquele tempo.
Não! Eu posso... mas sim! Eu gostava, sobretudo, do som da moedas, era tão bonito e agudo, tão gostoso de se ouvir.
Especialmente quando eu as colocava em um potinho e brincava de arremessá-las de uma só vez ao chão, ao menos assim, eu não precisava tapar os meus ouvidos dos gemidos e gritos de prazer que vinham do quarto ao lado.
Mamãe, por quê?
Eu adorava quando chovia. Minha grande satisfação era quando o chuvisco virava chuvarada, daquelas com temporal, vento e tudo junto, porque assim eu não ouvia mesmo os ecos surdos daquele ambiente profano.
Os sons dos pingos grossos, a escuridão acolhedora do quarto, era como se eu estivesse novamente no útero de minha mãe.
Mas os " Ah!", "Uhmmm", vinham me acordar de novo e de novo... AH!
Mas de manhã, ela toda de branco me sorria, como uma sílfide, como a própria virgem Maria e me chamava para tomar café.
Cada dia, um tio diferente. Tantos rostos e nomes.
Apenas um, eu nunca vou esquecer, ao menos, enquanto essa memória clamar por vida.
Jesus. Era este o nome.
E como o quadro no meu quarto, tinha grandes olhos azuis e estrábicos, era desbotado e com a boca cheia de dentes brancos que ao se curvarem num sorriso se faziam irresistíveis a  qualquer uma.
Então, mamãe apaixonou-se.
Logo vi que ele não era apenas um tio como todo os outros, mas sim alguém por quem mamãe realmente se importava, talvez até demais.
Descobri que ele também gostava da chuva quando em uma tarde, enquanto minha mãe estava no médico, ele me virou sobre a pia da cozinha e...
Oh Deus!
Queima-me como um carvão em brasa essas imagens. Salta-me a pele as marcas do meu despudor.
Padre Horácio já havia me alertado sobre os tios, mas eu já não me importava.
Passei a andar de sais curtas, sem calcinha e larguei todos os meus vestidos com flores e laços.
Cruzava as pernas despudoradamente, com o gesto ensaiado que tantas vezes vi minha mãe executar.
A cada dia, a saúde de Lúcia piorava e minha fome por tomar o seu lugar, crescia.
Não. Eu não  amava  o amante de minha mãe.
O que eu amava era ver o brilho da lascívia faiscando em seus olhos semi-cerrados, o que me afetava feito uma cadela, era sentir-se transtornada e amada na cerne da palavra.
Cada vez mais os potes de comprimido rodeavam minha casa e eu não sentia culpa. Eu via Lúcia morrer, mas eu, justo eu não poderia jamais ter pena dela. Porque ela fez-me assim e porque eu sempre a havia amado e ela apenas cumpria um horário ou um papel sem ser realmente mãe. Tudo mudava enquanto Lúcia ficava mais e mais tísica.
Era 12 de agosto e Lúcia estava em seu quarto, tossindo com um cão cheirando a enxofre. Jesus estava com ela, sua camisa enxarcada de pranto e sangue. Ele mal se movia, parecia submerso em alguma perda ou descoberta.
Oh Céus! Eles voltaram...
Estou tão cansada de estar aqui. Tão exausta dessas memórias! Cansada de Lúcia, Lúcia, sempre e sempre, Lúcia me perseguindo com seu punhal tísico, infectado, obceno! AH! TIREM-NA DAQUI!
Eu não consigo ver, meu estômago dói!
Depois de tudo, ele não me procurava mais, sequer olhava-me quando eu passava rente ao seu corpo pelo corredor.
Eu não podia mais suportar sua indiferença ou invunerabilidade a mim.
Dia 16 de agosto, Lúcia dorme em seu quarto após mais uma violenta crise de tosses Jesus está sentado no sofá, assistindo ao noticiário. Eu vou até ele e saboto suas resistências, ele diz: "NÃO!", "ISSO É ERRADO!" e eu solto a réplica: " QUANDO FOI?"
Eu subo por entre suas pernas e entrego-me a ele sem sequer tirar as saias.
Não sinto prazer, de fato, acho que nunca senti, nem tampouco dor. Apenas um golpe duro e fatal nas costas, seguido de uma puxão que me faz cair sobre o chão áspero e enterrar mais ainda a faca sobre minha pele suada. Tremo.
Levanto os olhos. Lúcia parece a própria imagem do inferno ou da falta de Deus.
O sangue desce pelo seu vestido e pela sua boca, o dela e o meu, como no parto, mas agora não existe cordão umbilical que nos una, apenas um cordão invisível de silêncio.
Daqui de onde estou ainda posso ouvi-los conversar.
Ele diz: "Você matou a minha filha, a nossa filha!"
Ela responde: " Eu a pari sozinha, também foi só eu que a criei, então, tinha o direito de tirar sua vida!"
Ele engasga  diz: " Ela nasceu do meu esperma e o corpo dela recebeu o meu fluido, ela era minha!"
Ela enxuga o sangue da boca com as costas da mão: " Está feito, eu nunca deveria ter deixado você olhar pra ela, agora, venha, tire o corpo de Madalena daqui."
as vozes... as vozes... as vozes! AAAAAAAAH!
Elas não me deixam em paz. Nunca. Nem se fecho os olhos.
Aqui é o mais próximo que consegui chegar de mim mesma e eu receio que eu não possa atirar a pedra que acertaria os pecados de mamãe.

A Cor da Loucura


As palavras devoravam a minha mente com uma fome última e voraz. Era como se elas estivessem tentando me contar uma estória, que eu me negava a escutar porque tinha medo de que talvez tudo fosse mais do que uma simples estória.
Porque poderia ser um segredo, um murmúrio na parede e no teto da noite, em silêncio, esvaindo-se no escuro, uma cólera saindo de todos os meus poros, uma fraqueza envolta na vertigem da sanidade.
Tudo começou quando eu descobri que estava louco.
Eu estava louco sem sê-lo, eu estava lucidamente inibriado da loucura.
Eu, aquele que sempre foi comedido e sensato, estava de uma paixão insana pela insanidade.
Queria beber de sua seiva preciosa e enroscar-me em sua cintura materna, queria que ela me acolhesse como seu filho primeiro. Como aquele que a quis, quando todos a refutavam.
Porque o que é para os outros, uma fuga, para mim é um berço. O que é a ruína para tantos, para mim é a glória do abandono consentido.
E que sabe a loucura não seja apenas a lucidez despida de sua pose?
Quem sabe não seja apenas este meu modo torto de enxergar o que é diferente de mim?
Quem sabe eu já esteja delirando tão somente por desejar estar delirando?
Enquanto eu não souber ao certo se estou são ou doido, ela permanecerá ao meu lado como uma fera de olhos fechados.
Eu quero erguer um brinde a todos os loucos, porque é deles,verdadeiramente, não apenas o reino dos céus, mas também todos os reinos da imaginação.
E mais um brinde em nome da luxuria, da ganância, da sordidez e de toda a incapacidade que mora em mim.
Porque eu acordei em um dia qualquer e descobri que existiam pequenas escavações dentro de mim e lá, bem no fundo dessas cavernas, viviam pequenos seres andróginos, que sorriam quando eu tinha cócegas e queriam me levar a morte, mas eu me negava todos os dias a beber o veneno que eles me ofereciam, quando parei de resistir e gorfei a dose fatal, já não tinha graça para ver cores, exceto o verde. Era tudo verde, verde, verde. Dava nojo!
Depois vieram as vozes e disseram que a loucura era verde.
Passei a entender tudo. Todo são tem esperança de um dia enlouquecer,mas os loucos não sabem o que é loucura sequer esperança. De tudo, só conhecem o verde.

Mess



"Eu vou me casar" - Você disse.
"Eu a amo muito" - Você disse.
"Serei feliz com ela" - Você disse.
"De qualquer maneira,você tem outra pessoa". - Você disse.

...

"Foda-se" - Eu disse.
"Foda-se" - Eu disse.
"Foda-se" - Eu disse.
"Você é a única pessoa que eu sempre amei". -Eu disse.

Tudo o que eu fui,toda a minha vida,foi ser errado,mas você,não,você foi sempre certo.
Quando ía chover você sabia,quando ía esfriar,você me mandava levar um casaco para a rua.
Mas agora,você não está certo.

Eu te amo.

E não sei quantas vezes ainda precisarei repetir isso.

Eu te amo.

E eu gostaria de repetir isso até o dia da minha morte,se preciso fosse.

Eu estou limpando as lágrimas do meu rosto,puxando as minhas calças desajeitadamente e tropeçando tentando agarrar um pedaço seu.
Porque eu não me importo mais com dignidade ou orgulho,tudo o que eu quero é você.
Eu quero você nos meus braços numa tarde de verão,tomando chá na varanda.
Eu quero você de noite,pressionando beijos suaves nos meus lábios para afastar o som distante do trovão. Eu quero você,você inteiro,sem reservas e medos,sem seu controle.

Eu não posso achar meus óculos e talvez eu não esteja enxergando direito e posso estar machucando seu pulso,mas eu estou em pânico e tão assustado,porque eu não posso perder você assim.
Eu estou uma bagunça. Eu realmente pareço uma droga,porque é o que eu sou.
Mas eu tinha a tola esperança de que mesmo eu sendo essa bagunça,você continuaria a me vestir com seu orgulho.Você ainda teria orgulho de me ter ao seu lado. Você ainda me amaria.

Eu,o garotinho abandonado.
Eu,o jovem frustrado e inseguro.
Eu,o adulto que sempre sentiu que o mundo tinha algo contra ele.
Mas você,você recolheu meus pedaços pelo chão,você tomou minha mão,me deu seu calor,seu colo e me disse que nunca partiria. Que eu jamais teria de ficar parado novamente num porto dando adeus à alguém.Você mentiu.

"Depois que você melhorar,podemos tentar conversar" - Você sussurra e saí.

Perfeito.

Você é perfeito.Você quer as coisas perfeitas. E o pior... você merece somente coisas perfeitas!

E eu não sou perfeito.


"Eu te amo" - Eu digo. Mas o tempo é muito curto. Você já tinha saído,sem ao menos saber o quanto estava errado.

Eu sou uma bagunça,mas eu sempre pensei que você me amava demais para se importar.
Mas,no final,eu só tive certeza de uma coisa em toda a minha vida,
Eu te amo.

Trechos do Escaravelho Mágico e Melodia de Duas Cores




Atravessar a porta é fácil,principalmente quando acaba de se perder as estrelas pelo carpete velho.
Rasgar as cortinas é necessário para não rasgar as palavras.
Para não exceder-se demais em explicações que só enchem as coisas com uma profunda metafísica falsa.
O copo que sombreia e a palma que o descreve  é tão insólito quanto o céu e a raiva.
É possível sentir as paredes comprimirem-se. É possível voar e sentir o sabor do sal e do medo preenchendo a língua.
Enormes olhos de cão espreitam a noite inteira.Esconder os pequenos frutos da mente embaixo das pedras,não é muito aconselhável.
Eu sei que você os esconde,isso não é nada.
Você gravita ao meu redor,julgando conhecer meus anseios.
Eu vejo a frivolidade com que trata a si próprio e temo.
Seu céu despenca mas ele não é seu.
Com um suspiro pesado,eu saío e visto meu melhor casaco e passo pela sua cama e sinto sua ingênua malícia me envolver.Eu compartilho sua música,porque sou a letra absurda enquanto você é a melodia que carrega as acácias no ar.Um perfeito encantador de serpentes.

Eles Não Estão Mais Aqui


Falsificaram minha conduta e fizeram-me usar outra de escudo.
Solidificaram minhas memórias para que elas erguessem-se diante de mim como os antigos generais.
Encheram minhas veias com fogo e cólera,fazendo-o as vezes de um Vesúvio em fúria.
Derramaram meu sangue nas escadarias e depois e depois tiraram os míudos para que os senhores pudessem ter sua consciência tranquila.
Lavaram o chão com sangue,mas a pedra já havia absorvido o pecado.
Apagaram meu nome dos muros e queimaram meus escritos prodigiosos.
Deram-me ciculta por corromper mentes e profonar céus.
Lançaram-me aos leões e as bestas celesteais.
Fizeram com que a víbora adentrasse o meu corpo e destilasse seu ligeiro e vertiginoso mel dentro da minha corrente sanguínia.
Não permitiram que eu corresse pelos campos uma última vez.
Atiraram em minha alma vã.
Lavaram as mãos perante a mentira e o despudor desta prostituta virgem.
Fuzilaram-me. Queimaram-me.
E trago a marca de ferro em brasa na carne do espírito.
Cuidaram de explodir cada célula e limpar os dejetos que poderiam provar o crime.
Sou só um eco frouxo no vento e dói a cada vez que tento respirar.

Pausa


Tenho que tirar quem eu sou do papel,
Tirar tudo o que almejo falar das letras das canções.
Tirar o extático e o espanto de mim,para que eu não canse de estar aqui.
Existe algo no meu modo de ver o falho,que se recusa a abandonar-me.
E existe uma eloquência tão grande dentro da solidão e um pasmo na descoberta da pequenez.
Quando deparo-me com o monótono,vejo-me inteira.
Quando tenho pé no breu,descubro que existem pessoas ao redor,no mais...
Eu vejo vultos e apenas ouço soluços disformes.
O que dizer sobre os primeiros passos da vida fugindo?
E da canção que não quer partir?
As lembranças insistentes de como você me deixou quando
eu mais precisava de um travesseiro.
Eu acho que parte do que sou,escorre do papel e foge,
Quando estou sem você.

ahn?

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