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AliceHolovati
sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Eu não vou voltar.
Nem que eu quisesse eu poderia, todas as lágrimas da véspera já secaram antes que eu pudesse colher todas as palavras não-ditas ou fugidas.
Mas eu não preciso ouvi-las, pois tenho o péssimo hábito de lê-las de antemão nos olhares que capto de soslaio quando entretida em meus pensamentos, deixo minha liberdade voar.
Já não escondo minha falta de trato no convívio com os amigos e não faço voz mansa pra pedir qualquer gole de bebida, eu vou vivendo.
E quando me indagam sobre o valor da vida, meu ar antes soturno e meditativo agora se alterna em paranóia e alegria convulsa.
E respondo a todos que quiserem ouvir que posso muito bem viver sem escrever.. mas que ah! não me deixem sem poesia.. ou definho.
E hoje em meio a turbulência da paz e o plenitude do caos, eu quero cantar a vida como quem pula poças e se deixa molhar.
Quero pedir mais um dia de amor, mais um milhão de sorrisos para destribuir pelas ruas que floreiam meu passo ritmado e dezenas de gerânios para destribuir as crianças que passam por mim.
Quero pedir apenas um copo de chá, um cobertor quente e certas mãos firmes envolvendo minha cintura.
Quero ver o céu, cantar todas as músicas e rir dos sábios e dos tolos.
Eu vou vivendo, procurando um ritmo, uma cor, um lugar onde parar.. um tema para um conto.
Guardando uma dúvida aqui, um papel acolá e uma ânsia incontrolável de ver, ser e estar.
Vou vivendo sobrevivendo as farpas, destribuindo vespas e fechando arestas.
Hoje, eu quero aqueles que me interessam perto.. mesmo que distantes.
Eu quero o conflito e o paradoxo de Platão, quero a lascívia de Greta Garbo e a paixão pela descoberta que uma criança tem ao tocar pela vez primeira em um caracol.
E que os deuses nunca permitam que eu perca a vontade de abrir os olhos a vida e que eu nunca caia na rotina de me ser, para que eu seja sempre múltipla embora constante e que dentro do meu coração (cofre pleno) esteja sempre em liberdade e repouso tudo aquilo que eu amo.
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AliceHolovati
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Você pode gritar até sua garganta pegar fogo e seus olhos esvaziarem-se de sentidos,
Mas isso não surtirá qualquer efeito desejado.
Você pode arrancar toda a carne que cobre teus fragéis ossos e deixar que os chacais a devorem quando a encontrarem descansando sobre o véu da lua,
Mas eu ainda estarei pairando acima e além de todas as suas parcas filosofias.
Se beberes de meu sangue, beberás do mais poderoso e corrosivo veneno-elixir.
Mas antes que macules minha pele com seu dentes sujos, abrirei sua mente e espalharei minha doença nela.
Acredite, você pode culpar Deus pelo erro do mundo, mas tuas palavras são tão-somente suas palavras e nada surgirá do pó a partir do teu verbo desajeitado.
Você pode cobrir a cabeça para dormir, pode encontrar-me na morada de Hypnos, mas eu ando com os espíritos do mar e das águas e tu vicejas na terra, erguendo os tímidos olhos até as alturas onde me elevo.
Porque não ouvimos a mesma música. Eu ouço as liras, as trovas e leio a poesia do mundo em cada carvalho ou olhar lívido de criança, eu sinto mais e meus olhos tremem em frenesi diante da vida.
Você rasteja entre os cacos da sua existência, vivendo de migalhas e brincando de chiaro- escuro comigo, você não me atormenta, mas se atormenta, você esbarra nos meus pés e engole a saliva ao me ver, você tem medo de mim e sabe, você quer tanto e tanto mas finge e eu sei da sua mentira cada vez que num cruzar de cílios vejo o silenciar gritado das sua pálpebras.
Eu andei procurando uma canção de raiva que me ligasse a você, mas você come a neblina dos becos e a sujeira metafísica do seu coração torpe.
Quero arrancar a luz caridosa dos seus olhos cíclicos, olhos de Parca.
Eu quero te conhecer na raíz, no apogeu da sua inanidade.. eu quero olhar nos seus olhos e te ver como minha igual, minha alma-irmã, quero esquecer que muito de você sou eu.
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AliceHolovati
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
1, 2, 3.
3?
...
6.
9.
Muitos.
Preciso lembrar-me de um lugar.
Muito mais que isso, preciso lembrar-me de uma vida toda que perdi na greta de uma porta imponente e antiga.
Preciso respirar, aspirar, respirar, negar a doença, dizer sim a vida.
Mas antes de tudo isso, eu preciso mesmo e talvez com mais verdade, pegar o livro ilustrado com o velho professor lunático de tweed mostarda e perguntar-lhe se por acaso sua musa costuma comer sementes de árvores com cara de monstros e voar com silfídes vermelhas por um bosque qualquer.
Eu preciso sentir o gás escorrer pela minha garganta e ver a fumaça expelida pelas minhas narinas nas noites frias.
Eu preciso reaprender sobre latim e botânica antes de ir embora.
Eu preciso beijar os seus lábios antes que a alvorada floresça e eu esqueça seu nome.
Eu preciso me lembrar como era chorar, lembrar como era viver sem as cinzas de um rancor prematuro.
Eu quero ter a consciência da morte, o pungente e letal veneno correndo ébrio pelas minhas veias, invadindo cada milímetro da minha corrente sanguínea já infectada pelo vírus.
Eu preciso cantar algumas canções novamente, para guardá-las no ar por um tempo.. elas sobreviverão a mim.
Quisera por um inócuo momento saber o sentido amplo e sereno da liberdade.
Porque pra mim, ela sempre foi um pássaro de asas partidas.
Quisera então que a frágil ave levasse-me em seu vôo intrépido pelos ares do infinito azul.
Quisera que meus olhos secos produzissem a lágrima derradeira ao ler Sylvia Plath uma vez mais.
Quisera sentir todos os sentimentos do mundo, dos mais torpes e profanos aos mais imaculados e santos e dizer todas as mentiras e verdades que eu poderia dizer as pessoas que amei e odiei.
Quisera tremer no frenesi de milhões de orgasmos, todos os orgamos de todas as pessoas do universo, das prostitutas virgens às freiras corrompidas.
E o gozo do mundo explodiria em minhas células corroídas e atrofiadas antes que a vida abandonasse de vez esse coração abusado.
Eu teria então, ao mesmo tempo, a dor e o fulgor da vida, estando a um suspiro da morte.
Eu descobriria a Atlântida escondida, dançaria com as valkírias e com os eunucos persas.
Eu suspiraria segredos aos jacobinos e acabaria na guilhotina, eu fumaria o ópio dos poetas malditos e satânicos e comungaria dos seus segredos sobre a morte que agora vejo pela janela.
Uma águia sangra no horizonte e como uma ironia ou uma charada mal concebida, eu sangro e enfraqueço.
Minha fraqueza é subjetiva e imoral.
Por querer ser todos, eu descobri a criatura estranha e intempestiva que sempre habitou dentro de mim.. sem que eu desse notícia dela.
Eu que quis conhecer o mundo com os pés ardendo e os olhos cansados, o conheci através de pardas páginas mudas e versos esquecidos.
Eu que tanto amei a morte, descobri a vida.
E no último suspiro, eu entendi tudo.
...
9.
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AliceHolovati
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Você deixou moedas no meu tapete.
Então, você bateu a porta e deixou a batida ecoando nos meus ouvidos por horas.
Você deixou marcas invisíveis a olho nu na minha pele.
Então, você escondeu as minhas palavras embaixo do travesseiro pra que não fugissem.
Você não me disse muitas coisas.
Então, eu tive que escrevê-las ou desenhá-las.
Você atingiu todos os meus poros.
Então, eu tentei arduamente enxergar além dos flocos de neve na sua retina.
Você inventou novas luas, novos sóis.
Então, eu tive que acreditar nos astros.
Você coloriu palavras, desmitificou outras e duplicou milhões de sentidos.
Então, eu desisti de todas as lógicas e voltei ao meu país de origem.
E você nunca soube de nada, você ainda não sabe de tantas coisas.
Então, sem saber exatamente por quê, eu deixei que você soubesse.
E você desde então.. costuma deixar as malditas moedas ou qualquer coisa assim, para eu não esquecer.
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AliceHolovati

As vezes o que te resta é uma lágrima seca atracada na garganta, mas é uma lágrima instintiva, que saí sem buscar qualquer explicação plausível.
Talvez, ela venha em função de um desejo frouxo de ter trazido o objeto raro que te protegeria da noite.
O meio sorriso que por vezes saí dos rostos submersos em diáfanas nuvens de maio, não é de singela alegria mas de constante resignação.
Mesmo as palavras tingidas por rubra tinta são medidas falhas nesse calendário torto.
E eu perdi a mão, o bonde, mas não a esperança.
Dias haverão em que andando pelas ruas sonolentas, poderei eu destinguir uma pressa de um anseio e quebrar as métricas da minha cabeça.
De todos os remédios, a tua solidão foi o que mais te ardeu a garganta, o que mais te fez perder o ar e gemer em cólera. Sei que não se pede para ser hipocondríaco, mas quando se o é.. nenhum sentimento externo te salva do azedume que vigora em sua bile negra.
Bem, eu poderia ter avisado, mas eu já não poderia exprimir, estando no ato III, a verdade que faria suas pálpebras estremecerem em convulso choro.
O que me cabe é só esse senso de superioridade anônima, de remetente de cartas com endereço suspeito e de ser sempre a procurada por crimes que não cometi.
E o que me cabe, me faz feliz.
E o que me faz feliz é estar sempre em fuga, em agonia, esperando mais e querendo que esse mais nunca escape.
A lágrima rola frágil, como minha alma escorregadia e na fragilidade das almas, viceja a poesia, a prosa e a raíz de todas as canções.
A fragilidade faz existir vida e a vida (em si) determina o destino de todas as lágrimas.
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AliceHolovati
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Passei por algumas luas tentando decifrar códigos e toda a sorte de sistemas metalinguísticos.
Briguei com Saussere, fiz e desfiz laços.
Eu vi a morte, o asfalto, as feridas apodrecidas e chorei sem emitir som.
Eu quis a dor, lancei-me sem mandamentos em seus braços.
No abismo, a providência deu-me asas rubras.
Morreu em mim um pouco da poesia silenciosa com que me alimentava, tal como beija-flor na seiva.
Não fiz madrigais, odes, canções, sequer trovas.
Abandonei as Hespérides, adentrei o Hades, o Valhala.
Sorri para máquinas.
De frases mal formuladas e sem coesão e coerência bebi epopéias.
Descobri países no mapa e nomes para o vento, e mais..
Descobri imagens para os azulejos do chão e animais para os ladrilhos do céu.
Queimei karma, ouvi teorias adversas, rompi auroras, bebi sereno e néctar na madrugada das almas.
E a náusea não atormenta mais.
Mas o que sinto e é intrínseco e inerente a minha condição de criatura errante, simplesmente não tem nome, nem cor.. não tem textura.
É como um purgatório de horas, mas dentro do paraíso.
Eu não quero que me vejam, eu não quero vê-los.
É como não terminar uma canção, tendo o intento de fazê-lo.
E todos vem a música, ouvem a paisagem sublime e amarela ao redor, multifocal, sólida, real.
Mas eu, vejo as bolhas azuis ao redor, isso ninguém nunca verá.
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AliceHolovati
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Talvez eu não tenha inteligência suficiente para escrever um tratado sobre a cólera e talvez eu nem queira ter.
Talvez eu esteja apenas esperando por ondas de alta frequência de uma descarga elétrica.
Talvez eu nem saiba o que isso quer dizer.
Talvez eu tenha sentido falta do vento.
Talvez eu tenha alimentado-me este tempo todo de auto-piedade e da caridade alheia.
Talvez tudo o que eu digo seja uma tentativa inerte de preencher os espaços em branco.
Talvez eu esteja pintando um mundo surrealista ao meu redor.
Um mundo visto sob a ótica de Magritte.
Talvez eu esteja erguendo essas muralhas apenas com meus dedos em chagas.
Talvez eu devesse parar de transformar tudo em cinzas.
Talvez eu devesse colher as flores azuis e perseguir os pássaros lúgubres.
Talvez fosse melhor eu ter virado a esquerda.
Talvez fosse melhor tapar os ouvidos em meio a algazarra.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não repetir,
Não mistificar,
Não sangrar,
Ou sangrar.. apenas no silêncio da minha garganta.
Talvez eu pudesse vencer meus espaços e elevar-me.
Subindo e planando até onde os olhos e sóis se dividem em moléculas soberbas e humildes,
Soberbas porque nelas está a miragem da vida e humildes porque são infímas diante da besta-fera do mundo.
Subir sem pensar na Terra, este casulo do infinito.
Elevação.
Sem pressionar o tempo pra pensar que depois os relógios enloqueceram,
E eu estarei com as mãos tintas, podres, disformes e famintas.
Escavação.
Pare de mexer com meu espaços extáticos.
Só.
Talvez.