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"Eu vou me casar" - Você disse.
"Eu a amo muito" - Você disse.
"Serei feliz com ela" - Você disse.
"De qualquer maneira,você tem outra pessoa". - Você disse.

...

"Foda-se" - Eu disse.
"Foda-se" - Eu disse.
"Foda-se" - Eu disse.
"Você é a única pessoa que eu sempre amei". -Eu disse.

Tudo o que eu fui,toda a minha vida,foi ser errado,mas você,não,você foi sempre certo.
Quando ía chover você sabia,quando ía esfriar,você me mandava levar um casaco para a rua.
Mas agora,você não está certo.

Eu te amo.

E não sei quantas vezes ainda precisarei repetir isso.

Eu te amo.

E eu gostaria de repetir isso até o dia da minha morte,se preciso fosse.

Eu estou limpando as lágrimas do meu rosto,puxando as minhas calças desajeitadamente e tropeçando tentando agarrar um pedaço seu.
Porque eu não me importo mais com dignidade ou orgulho,tudo o que eu quero é você.
Eu quero você nos meus braços numa tarde de verão,tomando chá na varanda.
Eu quero você de noite,pressionando beijos suaves nos meus lábios para afastar o som distante do trovão. Eu quero você,você inteiro,sem reservas e medos,sem seu controle.

Eu não posso achar meus óculos e talvez eu não esteja enxergando direito e posso estar machucando seu pulso,mas eu estou em pânico e tão assustado,porque eu não posso perder você assim.
Eu estou uma bagunça. Eu realmente pareço uma droga,porque é o que eu sou.
Mas eu tinha a tola esperança de que mesmo eu sendo essa bagunça,você continuaria a me vestir com seu orgulho.Você ainda teria orgulho de me ter ao seu lado. Você ainda me amaria.

Eu,o garotinho abandonado.
Eu,o jovem frustrado e inseguro.
Eu,o adulto que sempre sentiu que o mundo tinha algo contra ele.
Mas você,você recolheu meus pedaços pelo chão,você tomou minha mão,me deu seu calor,seu colo e me disse que nunca partiria. Que eu jamais teria de ficar parado novamente num porto dando adeus à alguém.Você mentiu.

"Depois que você melhorar,podemos tentar conversar" - Você sussurra e saí.

Perfeito.

Você é perfeito.Você quer as coisas perfeitas. E o pior... você merece somente coisas perfeitas!

E eu não sou perfeito.


"Eu te amo" - Eu digo. Mas o tempo é muito curto. Você já tinha saído,sem ao menos saber o quanto estava errado.

Eu sou uma bagunça,mas eu sempre pensei que você me amava demais para se importar.
Mas,no final,eu só tive certeza de uma coisa em toda a minha vida,
Eu te amo.

Trechos do Escaravelho Mágico e Melodia de Duas Cores




Atravessar a porta é fácil,principalmente quando acaba de se perder as estrelas pelo carpete velho.
Rasgar as cortinas é necessário para não rasgar as palavras.
Para não exceder-se demais em explicações que só enchem as coisas com uma profunda metafísica falsa.
O copo que sombreia e a palma que o descreve  é tão insólito quanto o céu e a raiva.
É possível sentir as paredes comprimirem-se. É possível voar e sentir o sabor do sal e do medo preenchendo a língua.
Enormes olhos de cão espreitam a noite inteira.Esconder os pequenos frutos da mente embaixo das pedras,não é muito aconselhável.
Eu sei que você os esconde,isso não é nada.
Você gravita ao meu redor,julgando conhecer meus anseios.
Eu vejo a frivolidade com que trata a si próprio e temo.
Seu céu despenca mas ele não é seu.
Com um suspiro pesado,eu saío e visto meu melhor casaco e passo pela sua cama e sinto sua ingênua malícia me envolver.Eu compartilho sua música,porque sou a letra absurda enquanto você é a melodia que carrega as acácias no ar.Um perfeito encantador de serpentes.

Eles Não Estão Mais Aqui


Falsificaram minha conduta e fizeram-me usar outra de escudo.
Solidificaram minhas memórias para que elas erguessem-se diante de mim como os antigos generais.
Encheram minhas veias com fogo e cólera,fazendo-o as vezes de um Vesúvio em fúria.
Derramaram meu sangue nas escadarias e depois e depois tiraram os míudos para que os senhores pudessem ter sua consciência tranquila.
Lavaram o chão com sangue,mas a pedra já havia absorvido o pecado.
Apagaram meu nome dos muros e queimaram meus escritos prodigiosos.
Deram-me ciculta por corromper mentes e profonar céus.
Lançaram-me aos leões e as bestas celesteais.
Fizeram com que a víbora adentrasse o meu corpo e destilasse seu ligeiro e vertiginoso mel dentro da minha corrente sanguínia.
Não permitiram que eu corresse pelos campos uma última vez.
Atiraram em minha alma vã.
Lavaram as mãos perante a mentira e o despudor desta prostituta virgem.
Fuzilaram-me. Queimaram-me.
E trago a marca de ferro em brasa na carne do espírito.
Cuidaram de explodir cada célula e limpar os dejetos que poderiam provar o crime.
Sou só um eco frouxo no vento e dói a cada vez que tento respirar.

Pausa


Tenho que tirar quem eu sou do papel,
Tirar tudo o que almejo falar das letras das canções.
Tirar o extático e o espanto de mim,para que eu não canse de estar aqui.
Existe algo no meu modo de ver o falho,que se recusa a abandonar-me.
E existe uma eloquência tão grande dentro da solidão e um pasmo na descoberta da pequenez.
Quando deparo-me com o monótono,vejo-me inteira.
Quando tenho pé no breu,descubro que existem pessoas ao redor,no mais...
Eu vejo vultos e apenas ouço soluços disformes.
O que dizer sobre os primeiros passos da vida fugindo?
E da canção que não quer partir?
As lembranças insistentes de como você me deixou quando
eu mais precisava de um travesseiro.
Eu acho que parte do que sou,escorre do papel e foge,
Quando estou sem você.

Corvo Rei


Vamos!
Semeie a violência entre os fragelados!
Destrua  as casas e cabanas de todos os seus inimigos e sacie sua sede de ódio nos corpos esquálidos e inertes da crianças cruas de afeto.
Roa sua almas e faça-as gemerem de frio quando observarem as próprias estrelas ancestrais desertarem dos céus.
Vamos! Você tem essa adaga na mão e pode fazer muitas coisas com ela,inclusive me matar.
Então... Por que apenas olha com esses grandes olhos cheios de piedade como se assim pudesse aliviar a minha dor de existir?
Como se seu falso afeto e sua caridade matinal pudessem me tirar deste nimbo da consciência onde agora me acho?
Por que você deixa isso esvair-se? Por que não diz as coisas que realmente são verdadeiras e deixa as outras para contar na igreja?
Prossiga!
Destruindo mentes,construindo zigurates,derrubando reis e tomando mulheres a contra gosto.
Seja o pior e ganhe o melhor.
E deixe-me,deixe-me estar.
Sem vento,sem casa,sem segurança.
Sem piedade e sem culpa também,porque as horas de medo tornaram-se sussurros e agora a casa ganhou um novo papel de parede.
Voe como um maldito pássaro de mau agouro e  pregue a tragédia e a miséria humana,deixe-me aqui,sem ter sentido e sem poder seguir sua cobardia.
É fácil tirar lágrimas de olhos sensíveis a luz,mas é difícil extrair mel das pedras,pedras onde só se vê jorrar fel.
Faça o mundo deixar de ter fé,invente um número pra você,violente a intuição.
Seja o abutre do homem.
E acima de tudo,não tenha pena ao ver os cadáveres à mercê dos corvos.

Nas Chamas de Roma


Existem pessoas que podem viver nas cinzas,na penumbra,alimentando-se de pó.
Outras precisam ir até as raízes dos carvalhos e sentir seu sabor no apego a terra,ir beber as gotas de orvalho provinientes das nuvens mais densas.
Alguns nascem para construir impérios durante o dia e outros aguardam a proteção da noite para queimá-los.
Enquanto uns escrevem cartas tolas ao mensageiro inexistente,outros passeiam pelas ruas em buscas de restos que possam inebriar momentaneamente seus corações tolos e desabusados.
Eu esperava algo que salvasse meus dias e a tempestade ajudou muito,era só água.
Sem qualquer explicação ou sentimento sobre tudo,era insensível ao ar e eu gostava disso.
Era correr pela tempestade,esperando que ela lhe fizesse companhia pra sempre.
O fogo. 
A cidadela ardia em chamas e os guardas haviam se jogado dos parapeitos das janelas.
Algumas mulheres corriam com suas crianças e alguns homens diante da fumaça asfixiante percebiam que a vida era um pouco mais do que as as assembléias e os banquetes regados a vinho,a vida era mais misteriosa que o corpo sacro santo das prostitutas importadas do exótico leste.
E a vida estava para se revelar em sua crueldade mais absurda.
Ao longe,um louco ou um são ou um pouco de tudo,tocava sua lira maestral.
A cidade rainha do mundo ardia ao som pungente das lágrimas do imperador e em sua vista algo ardia mais ainda,a composição de seu poema épico ainda não estava perfeita.
Quantas cidades ele haveria de queimar para compor sua obra prima e para ter o espírito quieto?
Ao longe,um anjo ajoelhava-se,com o rosto turvado de cinzas e recolhia os corpos miseráveis que tombavam nas redondezas da Velha e Sedenta Roma.
Pensando nisso,eu tinha esperança que a tempestade voltasse e me envolvesse em seu colo como uma mãe exilada.

Pra Me Levar


Enquanto caminho por essas ruas calmas,eu sei que você não estará na próxima casa.
Isso me deixa entre inquieto e com paz.
Eu vejo todas as pessoas terminarem sua vida no sono pacato de seus lares e estou tão imensamente livre e solto no tempo.
No final,não adiantou ter uma casa com solar,ter amor e vida.
Existem tais coisas que só o som da morte ensina.
Enquanto a liberdade não te cega os olhos,você pode ver as poças de água no chão e lamentar a chuva,assim como lamentará o frio,a fome e o vento,no futuro.
Eu estabeleço um pacto sagrado entre minha alma e a noite encolhida no céu.
Eu não tenho medo de acordar a cidadela púdica e santa com meus passos vagarosamente sujos e pífios.
Como se andar e fazer acordos com a noite resolvesse a dor que brilha nos olhos e faz fenecer o verde ao redor.
A comida do almoço,a redução da taxa de juros,o acidente de carro na BR,estão longes e futéis agora.Eu acordei pra dentro de mim e acordar ao contrário é irreversível.
É como a mente galgando as inócuas estrelas e serpenteando e caindo do céu em uma chuva lamoriosa de pensamentos suicidas.
Meu peito explode numa profunda gargalhada auto punitiva,eu encontro você na noite e sei que olha a mesma lua e me vê,ainda que sobre o véu do conformismo e da falta de esperança.
A rua faz reverberar meus passos e uma pergunta caí desajeitada na minha cabeça:
Porque você desafiou a sorte?
É tudo muito triste visto de noite e por dentro,eu gostaria de fechar os olhos.
Mas ainda há um longo caminho para casa e nada ao meu redor é real o suficiente para me acordar se eu ousar adormecer.

ahn?

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