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AliceHolovati
quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ela não era uma mulher.
Não era um homem.
Percebo hoje, que ela gostava de cultivar certos maneirismos andróginos.
Ela gostava de marrom, embora seus olhos fossem poças petrolíficas.
Ela lia e translia Rimbaud, mas gostava de dizer que os franceses eram uns porcos impertigados.
Manchas na parede eram suas contadoras de fábulas, e como dizia a fábula...
Ela queria conhecer Sherazarde, muito embora eu pense que ela sempre quisera ser Sherazarde.
... Ou Verlaine, ou Napoleão, ou Lennon...
Todos eram seus joguetes típicos.
Um dia, eu a conheci.
Ela não tinha cores estranhas no cabelo e nem fedia a esgoto, mas é como se a sensação fosse essa.
Ela pediu-me fogo e eu a olhei por trás dos óculos naquela noite de neblina e ela piscou os cílios antes de encarar o ar frio.
Soltando uma baforada profana, ela semi-sorriu pra mim, antes de pegar o isqueiro e acender o cigarro com grandes ares de agente da máfia italiana.
Agarrei meus braços e acarinhei o frio volúvel.
Ela? Simplesmente largava-se no gosto de tragar.
E tragava com fúria, como não o faria nenhuma dama, como só faria um outro homem.
"A noite é sempre assim aqui?" - Ela perguntou-me com os olhos apertados pela nicotina.
"Assim como?" - A encarei reticente.
"Tão sem esperanças...?" -Ela suspirou grave para em seguida quebrar-se em uma gargalhada desproporcional ao ar austero e enfadonho da noite.
"Onde está indo?" - Perguntei depois do inesperado estouro.
"Não sei... quê me importa?"
Ela fez-me cativo ali.
A acompanhei naquela viagem.
Em todas as demais provavelmente.
Ela fumou muitos cigarros e eu comprei uma coleção de isqueiros.
Pouco me importava seu ar esquiziotípico, sua figura andróide-andrógina, se ela vestia-se como um cara desleixado, seu mau-humor e seu mistério latente.
Depois de sair da terra das mil e uma noites sem esperanças, eu a deixaria ser o quisesse.
Sherazade, Verlaine, Napoleão, Lennon.
Desde que eu pudesse segui-la e ser seu sultão, seu Rimbaud, sua Josephine, seu McCartney... ou apenas o fogo do seu cigarro barato.
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AliceHolovati
sábado, 14 de agosto de 2010
Diziam que ela deveria se prevenir, usar casacos pesados e fugir das sombras que broqueavam o caminho.
Diziam que ela deveria ter fleuma, andar sobre ovos e manter a voz calma.
Nunca lhe disseram que o caminho poderia se bifurcar, nunca sequer pensaram que ela poderia escolher por vontade própria se ferir.
Então, ela escreveu sobre o amor e sobre como os homens enrolavam-se em dedos e sílabas para amar seus iguais, ela escreveu sobre uma curva, escreveu sobre a pessoa que a estaria esperando quando lá chegasse e no que ela mesma seria quando a encontrasse.
Mas era seu compromisso ser fiel a métrica e a rima, então ela chorou.
Porque nunca houve alguém na curva, tudo existia nas linhas mal traçadas de alguém condicionado a inventar a imagem mais bela.
E por achar bela a tal imagem, ela pensou que convenceria os outros, ela acreditou que os outros diante da perfeição a amariam por tê-la criado, mas nada parecia ser menos que disfuncional e violento para ela.
Ela jurou que não acreditava em nada que escrevia e continuou escrevendo cartas sem destinatário, continuou pintando seu rosto e enxugando seu pranto ressecado e sorrindo para a luz branca, brindando a todos com palavras de prodigiosa verdade, que eram todas mentirosas e desesperadas, porque pediam um ouvido que nunca existira.
Acolheu-se então no calor inapropriado de alguns braços, na luxúria provínciana de rapazes sonolentos, na caridade dos justos.
Em meio a turba de semelhantes indigestos, ela alimentou-se, e todos os restos de ternura eram como última esperança em mar de apatia.
Ela aprendeu que nunca poderia alimentar qualquer ideia de que a beleza tinha outro fim que não a morte, a morte... a morte era sua conhecida de longa data, sua amiga, seu pão, seu veneno lento e corrosivo.
Ninguém poderia jamais entender a vida sem encarar a frio os olhos âmbar da morte.
E tudo morria nela, como o sol que debanda ao entardecer e nos deixa com um gosto vazio do que seria a eternidade.
A curva que nunca chegaria, a fez parar no meio do caminho e aquela que quis muitas pessoas em uma só, terminou servindo chá para seus leitores invisíveis e mudos.
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AliceHolovati
quarta-feira, 28 de julho de 2010
"É que algum vento montanhês da Noruega contou que a liberdade é triste, mas é leve." - Ophélie - Arthur Rimbaud.
Era noite alta quando a pálida Ofélia levantou-se de seu leito casto para encontrar a doce proteção da lua.
As coroas de flores multi coloridas pendiam de suas mãos delicadas e o ar diáfano da noite balançava seu vestido de cambraia com o vento furioso que soprava da Noruega para a Dinamarca.
Ouviam-se pássaros noturnos, como harpias cantando no abandono da escuridão.
A bela e gentil Ofélia, finalmente livrava-se de sua alma pesada e suja e frágil.
No braço escuro das sombras noturnas ela via a face da Deusa e sentia seu espírito voar no manto de estrelas abandonadas no palco do céu.
Ela queria dançar como uma Ninfa, ela queria sugar o néctar do fruto proibido como Perséfone fez quando no Hades, ela queria lançar-se as águas como Narciso.
Com os olhos transtornados, ela se aproximou do lago de águas verdes que ficava embaixo de um salgueiro chorão, ainda fitando seu rosto fantasmagórico no espelho d'água, julgou ouvir voz rouca e danificada de seu pai ao longe, julgou ouvir um último grito lúgubre de adeus que logo cessou.
Juntando suas coroas de flores... rosas, violetas, arrudas, amores-perfeitos, violetas.
“ Como pode alguém com violetas na mão ser triste?” perguntou ela para um coruja.
Agarrando com delicadeza as coroas que lhe caiam das mãos, ela subiu até o ponto mais alto do salgueiro, cantava antigas canções proféticas, canções de tremer o céu e de fazer chorar os anjos do paraíso e as dríades que habitavam as árvores e urbes do bosque esquecido.
“Ele se foi, não voltará, de linho branco era sua cabeleira, baixem as tampas, ele não voltará”
A cada gota de sua canção, sua voz enfraquecia e virava um ganido gélido preso em sua garganta áspera.
Sua alma que voava mais além queria pertencer aquele lugar sacrossanto, aquele lugar pagão, livre e mesmo assim maldito.
“Minha alma vai com o rio, vai além do rio”
E como Zéfiro era seu amigo de longa data, o ventou suspirou apenas uma vez, antes de entregar a bela donzela aos cuidados das nereidas do lago profundo.
Os vestidos como velas afundavam e sugavam a doce criatura, qual ninfa, ela parecia dada ao elemento e com toda a suavidade que fora sua vida, seu sono eterno não foi um suícidio e sim o adentrar para um mundo edílico, onde qual rainha das flores, ela flutuava em um carro puxado pelas mais belas criaturas do lago.
Seu amor aviltado, sua dor dilacerante, ficaram na superfície do lago silencioso que em seu berço guardava a formosa Sílfide.
As pessoas que vieram depois nunca mais saberiam o que é beleza, porque a beleza havia se matado naquela noite nas montanhas da Dinamarca.
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AliceHolovati
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Cá estou,
Na companhia dos meus convivas;
Os velhos e os novos poetas.
E tudo o que guardei foi uma caixa com as coisas que levarei quando partir.
Cá estou,
tentando entender porque pra mim as letras ganham cores e texturas.
Vogais?
As preciosas vogais, tão engalanadas, galantes.
Mesmo a água que desce em fio pela minha garganta tem um som particular.
Eu tento escrever palavras que me façam voar,
Mas o efeito é o reverso.
Elas me aprisionam e levam-me a forca.
Velhas companheiras de viagem, não?
Tudo o que quero, no entanto,
É que as palavras não me abandonem.
Desde que ergui um panteão à poesia,
A quero em sua forma mais humana e bestial.
A quero como sarça ardente que ao queimar também clareia as pálpebras,
A quero porque quer ver.
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AliceHolovati
terça-feira, 13 de julho de 2010

Eu pensei que bastava colocar meus sonhos numa garrafa vazia e estariam para sempre protegidos pelo mar, mas e novo, eu errei.
O meu mar, era feito de vinho tinto. Quem dera fosse sangue!
Quantas vezes estive aqui e quis sangrar, mas minha pele árida era tão ébria e inútil que sequer servia para fonte de martírios?
Quantas vezes sentindo as náuseas de existir atingirem-me fundo, não quis me entregar a voluptuosidade do mar?
Resta-me agora, há poucos dias de deixar de ser, a vaga impressão de que serei um reflexo rápido na mente embriagada de alguém. E tenho por companhia, uma mesa, dessas sérias, de madeira pesada e antiga, com areia nos pés e uma taça de champanhe na mão caída.
O cabelo que adorna meu rosto, é ralo.
A sobra que tenho dos dias, é pouca.
A vontade de certa voz, existe.
Sobre os ombros o peso da felicidade que não quero ter, a ingenuidade de querer ter o que me era de direito. Só e sem querer, muda.
Peço outra taça, o céu desce em mim, não estou só.
Chamo os fantasmas pra ficarem o resto da noite e deito a minha cabeça sobre a mesa.
Quando acordar, o infinito azul de olhos breves terá acolhido a garrafa onde depositei os sonhos que nunca tive.
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AliceHolovati
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Abaixou a cabeça.
Seria bom se sangrasse. - Pensou.
O sangue é real e sempre sangue, ele não é mutável, só aquoso, espesso, as vezes, grosso e insuficiente.
Sangue é só sangue, sem ambiguidade.
Voltou a olhar a mão, balançou os cabelos, eliminando a cortina de fios ralos dos olhos, queria dormir.
É a dor de ver que o deixava com os pés em chamas e a dor de saber o que se é sem o ser.
Só a queda lhe era verdadeira, só a perda lhe era intelígivel.
O erro do mundo, a falta de verdade na poesia, a queda do alto da torre da cidade dos pecados que criara.
Queria que os verbos comessem-lhe a carne para que não tivesse que perder a delicadeza lidando com seu pequeno negócio ilegal.
O mar não era mais o que queria, a chuva caía porque era de lei que caisse, ele sofria porque algum poeta sádico dissera em algum café parisiense que sofrer era bom, nada ali era real.
Começando por sua figura patética, catando no ar as sobras de afeto e vergonha, mas deixando-as cair pelo tapete sujo, emparelhando-se aos ácaros no chão.
Desistiu do sonho da criação. Era só mais alguém em um novo lugar que queria recriar um mundo que não valia a pena e se julgava especial por isso. Oras! Conclusão óbvia: Se não entendo o mundo, então sou superior a ele, se não consigo seguir as regras de convivência e ser tão senhor quanto todos os meus iguais, logo sou um gênio.
No entanto, em todas as suas borrascas de inspiração, tudo o que fazia era copiar e morrer.
Morria a cada palavra, a cada linha que sangrava de seu pulso dorido.
Morria porque viver é morrer devagar e porque é por amar o mundo natural que se vive querendo a morte, porque o mistério dos seres vem daí.
As grandes orgias da consciência, o cosmos da inteligência, a superioridade de sua imaginação, o repúdio pelas práticas sociais, tudo só existia porque querendo recriar o amor, ele recriou o inferno e seu ar azul.
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AliceHolovati
sábado, 12 de junho de 2010

Decidi passear dentro de mim.
Sem esquecer, é claro, de carregar um guarda-chuva, a maior proteção que devemos ter a mão para lidar com os sentimentos externos.
Andei até meus pés não sentirem mais a dor de andar e fui parar na frente de uma casinha, cercada por um exército de gafanhotos que bebiam leite com mel.
-Você vai se perder, Alice. E lembre-se de avisar aos tolos de pedra de que nada aqui é real e que a meia noite, talvez, eles ouçam o canto de uma pássaro negro ou uma melodia ao contrário.
-Isso deveria ser tão irônico... - Eu balbuciei de dentro da minha vergonha de estar dentro da minha própria garganta.
Os gafanhotos deram-me um sinal de partida e diante dos meus olhos afoitos, transformaram-se em besouros prateados, espécimes raros aqueles.
Continuei procurando dentro de mim mesmo, o fel com o qual, constantemente, eu me martirizava e onde eu escondia minha óbvia falta de sorte e visão.
Haveria de estar em algum lugar!
Um homem carregando uma pequena flauta seguido de um sátiro bem munido de um alaúde censuraram-me por estar atrasada para o casamento.
-Que casamento? - Eu perguntei distante, como se não estivesse dentro de mim.
- O casamento, menina tola, só existe um. - O homem disse, antes de soltar uma nota impetuosa de sua flauta.
- Só acontece um casamento por ano e infelizmente é o errado, você não sabe escolher!- Continuou o sátiro a exemplo de seu companheiro, tirando dessa vez, um trecho melancólico de seu alaúde.
-Eu estou perdida, só sei que comecei com uma viagem pela minha garganta, mas continuei descendo e vi gafanhotos estranhos, nem sei que casamento é esse, meus senhores. - Eu tenti formular alguma coerência dentro da incoerência na qual havia me absorvido.
-Você gosta de preto? - O Homem.
- Claro que não, seu imbecil, ela está vestida de vermelho. - O Sátiro.
- Ela está com as cores de Ares! - Um sorriso do Homem
-Porque hoje é o dia de Ares, estúpido!! - Um revirar de olhos do Sátiro.
- Eu suponho que tenham escrito meu nome primeiro para eu ser o chefe, não? - O Homem.
- A estória ganha o rumo que quiser, como as estradas que levam a Igreja do casamento.- O Sátiro.
- O CASAMENTO! Estamos atrasados, muito atrasados, tudo bem, garota, ache um vestido preto e esteja o quanto antes na Igreja. - Os dois.
- Mas como acharei um vestido e que caminho devo tomar, onde ficam essas estradas?- Eu.
- As estradas estão em todo o lugar, mas você deve saber onde deve saber a onde quer chegar, adeus, menina tola.! - o Sátiro sorriu enigmático.
De repente arrastaram a poeira das botas no vento e nunca mais se ouviu falar deles, ou fui eu quem nunca mais ouvi?
A frente de uma carroça abandonada, achei um vestido de feltro, preto e sóbrio.
Achei bem apropriado para o casamento, mas uma ideia não me abandonava de todo, por que diabos as pessoas deveriam ir de preto, oras, isso era casamento ou uma comitiva de enterro?
-Os dois, minha filha.
Respondeu-me da escuridão, uma ave de coloração esverdeada.
Meu susto foi tamanho que deixei cair o vestido que imediatamente aderiu a minha pele sem que eu precisasse vesti-lo.
-Estranho...
- Já escolheu o caminho, menina Alice? - Ela sorria como uma avó.
- Falta-lhe os óculos. - Eu não pude me impedir de falar.
Imediatamente um par de óculos pousaram em seu rosto, aparados por seu longo bico.
- Tudo o que quiser, minha cara, afinal, tudo isso também é seu, estamos dentro de você.
-Como você sabe?
- Eu sei de muitas coisa, Alice, como sei, por exemplo, que você quer ir ao casamento e não sabe que caminho tomar.
-De fato. - Reconheci, pela primeira vez sentindo carinho por “alguém” dali.
- Simplesmente siga, vai reconhecer o caminho quando chegar lá.
Eu fiz o que a sorridente ave avó de óculos me disse, desci, desci, desci, sem escadas, sem descidas, sem ladeiras...
Até que passei por um campo aberto, parecia uma página extraída do Kamasutra, havia ali um enorme gigante andrógino deitado, sua face e sua posição indicavam que estava num momento de êxtase e homem e mulheres copulavam em suas coxas, subiam por seu peito e deleitavam-se em sua genitália dupla.
Quando cheguei mais perto, alguém quis me puxar para juntar-me aos meus próprios delírios, respondi que não, que tinha de chegar ao casamento.
O garoto despido e orgulhoso de sua nudez indicou-me um atalho, no qual, eu encontraria um objeto voador vermelho.
Já dentro do objeto, acionei diversos botões, um deles haveria de ser o certo.
Depois de um vôo tímido, entrei na estrada certa, ou seria a errada?
Naquela altura da minha viagem, não importava mais.
Avistei uma grande catedral com sombras góticas, sua fachada estava enfeitada com flores negras e vermelhas.
Um árvore carregava a seguinte inscrição “ aqui morre o amor”, fiquei com medo de continuar, mas segui, mesmo temerosa.
Havia poucas pessoas na Igreja, um total de 9, além do padre e dos noivos.
A moça exibia um sorriso angelical, mas meu peito queimava, não era justo.
O moço parecia pensar como eu, assim como todos os presentes.
Letras de música atravessavam meus olhos, melodias de Bach, Chopin e também o som cálido dos pássaros de inverno.
Então.
Não foi nada além de um olhar vazio e doente pousado numa xícara de chá, e a esperança de entender morrendo ali.