Do Extático ao Caos


Talvez eu não tenha inteligência suficiente para escrever um tratado sobre a cólera e talvez eu nem queira ter.
Talvez eu esteja apenas esperando por ondas de alta frequência de uma descarga elétrica.
Talvez eu nem saiba o que isso quer dizer.
Talvez  eu tenha sentido falta do vento.
Talvez eu tenha alimentado-me este tempo todo de auto-piedade e da caridade alheia.
Talvez tudo o que eu digo seja uma tentativa inerte de preencher os espaços em branco.
Talvez eu esteja pintando um mundo surrealista ao meu redor.
Um mundo visto sob a ótica de Magritte.
Talvez eu esteja erguendo essas muralhas apenas com meus dedos em chagas.
Talvez eu devesse parar de transformar tudo em cinzas.
Talvez eu devesse colher as flores azuis e perseguir os pássaros lúgubres.
Talvez fosse melhor eu ter virado a esquerda.
Talvez fosse melhor tapar os ouvidos em meio a algazarra.


Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.


Talvez fosse melhor não repetir,
Não mistificar,
Não sangrar,
Ou sangrar.. apenas no silêncio da minha garganta.
Talvez eu pudesse vencer meus espaços e elevar-me.
Subindo e planando até onde os olhos e sóis se dividem em moléculas soberbas e humildes,
Soberbas porque nelas está a miragem da vida e humildes porque são infímas diante da besta-fera do mundo.
Subir sem pensar na Terra, este casulo do infinito.
Elevação.
Sem pressionar o tempo pra pensar que depois os relógios enloqueceram,
E eu estarei com as mãos tintas, podres, disformes e famintas.
Escavação.
Pare de mexer com meu espaços extáticos.
Só.
Talvez.

Isqueiros


Ela não era uma mulher.
Não era um homem.
Percebo hoje, que ela gostava de cultivar certos maneirismos andróginos.
Ela gostava de marrom, embora seus olhos fossem poças petrolíficas.
Ela lia e translia Rimbaud, mas gostava de dizer que os franceses eram uns porcos impertigados.
Manchas na parede eram suas contadoras de fábulas, e como dizia a fábula...
Ela queria conhecer Sherazarde, muito embora eu pense que ela sempre quisera ser Sherazarde.
... Ou Verlaine, ou Napoleão, ou Lennon...
Todos eram seus joguetes típicos.
Um dia, eu a conheci.
Ela não tinha cores estranhas no cabelo e nem fedia a esgoto, mas é como se a sensação fosse essa.
Ela pediu-me fogo e eu a olhei por trás dos óculos naquela noite de neblina e ela piscou os cílios antes de encarar o ar frio.
Soltando uma baforada profana, ela semi-sorriu pra mim, antes de pegar o isqueiro e acender o cigarro com grandes ares de agente da máfia italiana.
Agarrei meus braços e acarinhei o frio volúvel.
Ela? Simplesmente largava-se no gosto de tragar.
E tragava com fúria, como não o faria nenhuma dama, como só faria um outro homem.
"A noite é sempre assim aqui?" - Ela perguntou-me com os olhos apertados pela nicotina.
"Assim como?" - A encarei reticente.
"Tão sem esperanças...?" -Ela suspirou grave para em seguida quebrar-se em uma gargalhada desproporcional ao ar austero e enfadonho da noite.
"Onde está indo?" - Perguntei depois do inesperado estouro.
"Não sei... quê me importa?"
Ela fez-me cativo ali.
A acompanhei naquela viagem.
Em todas as demais provavelmente.
Ela fumou muitos cigarros e eu comprei uma coleção de isqueiros.
Pouco me importava seu ar esquiziotípico, sua figura andróide-andrógina, se ela vestia-se como um cara desleixado, seu mau-humor e seu mistério latente.
Depois de sair da terra das mil e uma noites sem esperanças, eu a deixaria ser o quisesse.
Sherazade, Verlaine, Napoleão, Lennon.
Desde que eu pudesse segui-la e ser seu sultão, seu Rimbaud, sua Josephine, seu McCartney... ou apenas o fogo do seu cigarro barato.

Caminho Reto



Diziam que ela deveria se prevenir, usar casacos pesados e fugir das sombras que broqueavam o caminho.
Diziam que ela deveria ter fleuma, andar sobre ovos e manter a voz calma.
Nunca lhe disseram que o caminho poderia se bifurcar, nunca sequer pensaram que ela poderia escolher por vontade própria se ferir.
Então, ela escreveu sobre o amor e sobre como os homens enrolavam-se em dedos e sílabas para amar seus iguais, ela escreveu sobre uma curva, escreveu sobre a pessoa que a estaria esperando quando lá chegasse e no que ela mesma seria quando a encontrasse.
Mas era seu compromisso ser fiel a métrica e a rima, então ela chorou.
Porque nunca houve alguém na curva, tudo existia nas linhas mal traçadas de alguém condicionado a inventar a imagem mais bela.
E por achar bela a tal imagem, ela pensou que convenceria os outros, ela acreditou que os outros diante da perfeição a amariam por tê-la criado, mas nada parecia ser menos que disfuncional e violento para ela.
Ela jurou que não acreditava em nada que escrevia e continuou escrevendo cartas sem destinatário, continuou pintando seu rosto e enxugando seu pranto ressecado e sorrindo para a luz branca, brindando a todos com palavras de prodigiosa verdade, que eram todas mentirosas e desesperadas, porque pediam um ouvido que nunca existira.
Acolheu-se então no calor inapropriado de alguns braços, na luxúria provínciana de rapazes sonolentos, na caridade dos justos.
Em meio a turba de semelhantes indigestos, ela alimentou-se, e todos os restos de ternura eram como última esperança em mar de apatia.
Ela aprendeu que nunca poderia alimentar qualquer ideia de que a beleza tinha outro fim que não a morte, a morte... a morte era sua conhecida de longa data, sua amiga, seu pão, seu veneno lento e corrosivo.
Ninguém poderia jamais entender a vida sem encarar a frio os olhos âmbar da morte.
E tudo morria nela, como o sol que debanda ao entardecer e nos deixa com um gosto vazio do que seria a eternidade.
A curva que nunca chegaria, a fez parar no meio do caminho e aquela que quis muitas pessoas em uma só, terminou servindo chá para seus leitores invisíveis e mudos.

Ofélia





"É que algum vento montanhês da Noruega contou que a liberdade é triste, mas é leve." - Ophélie - Arthur Rimbaud.


Era noite alta quando a pálida Ofélia levantou-se de seu leito casto para encontrar a doce proteção da lua.
As coroas de flores multi coloridas pendiam de suas mãos delicadas e o ar diáfano da noite balançava seu vestido de cambraia com o vento furioso que soprava da Noruega para a Dinamarca.
Ouviam-se pássaros noturnos, como harpias cantando no abandono da escuridão.
A bela e gentil Ofélia, finalmente livrava-se de sua alma pesada e suja e frágil.
No braço escuro das sombras noturnas ela via a face da Deusa e sentia seu espírito voar no manto de estrelas abandonadas no palco do céu.
Ela queria dançar como uma Ninfa, ela queria sugar o néctar do fruto proibido como Perséfone fez quando no Hades, ela queria lançar-se as águas como Narciso.
Com os olhos transtornados, ela se aproximou do lago de águas verdes que ficava embaixo de um salgueiro chorão, ainda fitando seu rosto fantasmagórico no espelho d'água, julgou ouvir voz rouca e danificada de seu pai ao longe, julgou ouvir um último grito lúgubre de adeus que logo cessou.
Juntando suas coroas de flores... rosas, violetas, arrudas, amores-perfeitos, violetas.
“ Como pode alguém com violetas na mão ser triste?” perguntou ela para um coruja.
Agarrando com delicadeza as coroas que lhe caiam das mãos, ela subiu até o ponto mais alto do salgueiro, cantava antigas canções proféticas, canções de tremer o céu e de fazer chorar os anjos do paraíso e as dríades que habitavam as árvores e urbes do bosque esquecido.
“Ele se foi, não voltará, de linho branco era sua cabeleira, baixem as tampas, ele não voltará”
A cada gota de sua canção, sua voz enfraquecia e virava um ganido gélido preso em sua garganta áspera.
Sua alma que voava mais além queria pertencer aquele lugar sacrossanto, aquele lugar pagão, livre e mesmo assim maldito.
“Minha alma vai com o rio, vai além do rio”
E como Zéfiro era seu amigo de longa data, o ventou suspirou apenas uma vez, antes de entregar a bela donzela aos cuidados das nereidas do lago profundo.
Os vestidos como velas afundavam e sugavam a doce criatura, qual ninfa, ela parecia dada ao elemento e com toda a suavidade que fora sua vida, seu sono eterno não foi um suícidio e sim o adentrar para um mundo edílico, onde qual rainha das flores, ela flutuava em um carro puxado pelas mais belas criaturas do lago.
Seu amor aviltado, sua dor dilacerante, ficaram na superfície do lago silencioso que em seu berço guardava a formosa Sílfide.
As pessoas que vieram depois nunca mais saberiam o que é beleza, porque a beleza havia se matado naquela noite nas montanhas da Dinamarca.

Minha Embriaguez



Cá estou,
Na companhia dos meus convivas;
Os velhos e os novos poetas.
E tudo o que guardei foi uma caixa com as coisas que levarei quando partir.


Cá estou,
tentando entender porque pra mim as letras ganham cores e texturas.
Vogais?
As preciosas vogais, tão engalanadas, galantes.
Mesmo a água que desce em fio pela minha garganta tem um som particular.
Eu tento escrever palavras que me façam voar,
Mas o efeito é o reverso.
Elas me aprisionam e levam-me a forca.
Velhas companheiras de viagem, não?


Tudo o que quero, no entanto,
É que as palavras não me abandonem.
Desde que ergui um panteão à poesia,
A quero em sua forma mais humana e bestial.
A quero como sarça ardente que ao queimar também clareia as pálpebras,
A quero porque quer ver.

Champanhe Para Dois



Eu pensei que bastava colocar meus sonhos numa garrafa vazia e  estariam para sempre protegidos pelo mar, mas e novo, eu errei.
O meu mar, era feito de vinho tinto. Quem dera fosse sangue!
Quantas vezes estive aqui e quis sangrar, mas minha pele árida era tão ébria e inútil que sequer servia para fonte de martírios?
Quantas vezes sentindo as náuseas de existir atingirem-me fundo, não quis me entregar a voluptuosidade do mar?
Resta-me agora, há poucos dias de deixar de ser, a vaga impressão de que serei um reflexo rápido na mente embriagada de alguém. E tenho por companhia, uma mesa, dessas sérias, de madeira pesada e antiga, com areia nos pés e uma taça de champanhe na mão caída.
O cabelo que adorna meu rosto, é ralo.
A sobra que tenho dos dias, é pouca.
A vontade de certa voz, existe.
Sobre os ombros o peso da felicidade que não quero ter, a ingenuidade de querer ter o que me era de direito. Só e sem querer, muda.
Peço outra taça, o céu desce em mim, não estou só.
Chamo os fantasmas pra ficarem o resto da noite e deito a minha cabeça sobre a mesa.
Quando acordar, o infinito azul de olhos breves terá acolhido a garrafa onde depositei os sonhos que nunca tive.

Reinventando o Inferno


Abaixou a cabeça.
Seria bom se sangrasse. - Pensou.
O sangue é real e sempre sangue, ele não é mutável, só aquoso, espesso, as vezes, grosso e insuficiente.
Sangue é só sangue, sem ambiguidade.
Voltou a olhar a mão, balançou os cabelos, eliminando a cortina de fios ralos dos olhos, queria dormir.
É a dor de ver que o deixava com os pés em chamas e a dor de saber o que se é sem o ser.
Só a queda lhe era verdadeira, só a perda lhe era intelígivel.
O erro do mundo, a falta de verdade na poesia, a queda do alto da torre da cidade dos pecados que criara.
Queria que os verbos comessem-lhe a carne para que não tivesse que perder a delicadeza lidando com seu pequeno negócio ilegal.
O mar não era mais o que queria, a chuva caía porque era de lei que caisse, ele sofria porque algum poeta sádico dissera em algum café parisiense que sofrer era bom, nada ali era real.
Começando por sua figura patética, catando no ar as sobras de afeto e vergonha, mas deixando-as cair pelo tapete sujo, emparelhando-se aos ácaros no chão.
Desistiu do sonho da criação. Era só mais alguém em um novo lugar que queria recriar um mundo que não valia a pena e se julgava especial por isso. Oras! Conclusão óbvia: Se não entendo o mundo, então sou superior a ele, se não consigo seguir as regras de convivência e ser tão senhor quanto todos os meus iguais, logo sou um gênio.
No entanto, em todas as suas borrascas de inspiração, tudo o que fazia era copiar e morrer.
Morria a cada palavra, a cada linha que sangrava de seu pulso dorido.
Morria porque viver é morrer devagar e porque é por amar o mundo natural que se vive querendo a morte, porque o mistério dos seres vem daí.
As grandes orgias da consciência, o cosmos da inteligência, a superioridade de sua imaginação, o repúdio pelas práticas sociais, tudo só existia porque querendo recriar o amor, ele recriou o inferno e seu ar azul.

ahn?

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