Champanhe Para Dois



Eu pensei que bastava colocar meus sonhos numa garrafa vazia e  estariam para sempre protegidos pelo mar, mas e novo, eu errei.
O meu mar, era feito de vinho tinto. Quem dera fosse sangue!
Quantas vezes estive aqui e quis sangrar, mas minha pele árida era tão ébria e inútil que sequer servia para fonte de martírios?
Quantas vezes sentindo as náuseas de existir atingirem-me fundo, não quis me entregar a voluptuosidade do mar?
Resta-me agora, há poucos dias de deixar de ser, a vaga impressão de que serei um reflexo rápido na mente embriagada de alguém. E tenho por companhia, uma mesa, dessas sérias, de madeira pesada e antiga, com areia nos pés e uma taça de champanhe na mão caída.
O cabelo que adorna meu rosto, é ralo.
A sobra que tenho dos dias, é pouca.
A vontade de certa voz, existe.
Sobre os ombros o peso da felicidade que não quero ter, a ingenuidade de querer ter o que me era de direito. Só e sem querer, muda.
Peço outra taça, o céu desce em mim, não estou só.
Chamo os fantasmas pra ficarem o resto da noite e deito a minha cabeça sobre a mesa.
Quando acordar, o infinito azul de olhos breves terá acolhido a garrafa onde depositei os sonhos que nunca tive.

Reinventando o Inferno


Abaixou a cabeça.
Seria bom se sangrasse. - Pensou.
O sangue é real e sempre sangue, ele não é mutável, só aquoso, espesso, as vezes, grosso e insuficiente.
Sangue é só sangue, sem ambiguidade.
Voltou a olhar a mão, balançou os cabelos, eliminando a cortina de fios ralos dos olhos, queria dormir.
É a dor de ver que o deixava com os pés em chamas e a dor de saber o que se é sem o ser.
Só a queda lhe era verdadeira, só a perda lhe era intelígivel.
O erro do mundo, a falta de verdade na poesia, a queda do alto da torre da cidade dos pecados que criara.
Queria que os verbos comessem-lhe a carne para que não tivesse que perder a delicadeza lidando com seu pequeno negócio ilegal.
O mar não era mais o que queria, a chuva caía porque era de lei que caisse, ele sofria porque algum poeta sádico dissera em algum café parisiense que sofrer era bom, nada ali era real.
Começando por sua figura patética, catando no ar as sobras de afeto e vergonha, mas deixando-as cair pelo tapete sujo, emparelhando-se aos ácaros no chão.
Desistiu do sonho da criação. Era só mais alguém em um novo lugar que queria recriar um mundo que não valia a pena e se julgava especial por isso. Oras! Conclusão óbvia: Se não entendo o mundo, então sou superior a ele, se não consigo seguir as regras de convivência e ser tão senhor quanto todos os meus iguais, logo sou um gênio.
No entanto, em todas as suas borrascas de inspiração, tudo o que fazia era copiar e morrer.
Morria a cada palavra, a cada linha que sangrava de seu pulso dorido.
Morria porque viver é morrer devagar e porque é por amar o mundo natural que se vive querendo a morte, porque o mistério dos seres vem daí.
As grandes orgias da consciência, o cosmos da inteligência, a superioridade de sua imaginação, o repúdio pelas práticas sociais, tudo só existia porque querendo recriar o amor, ele recriou o inferno e seu ar azul.

Quando Alice Não Voltou


Decidi passear dentro de mim.
Sem esquecer, é claro,  de carregar um guarda-chuva, a maior proteção que devemos ter a mão para lidar com os sentimentos externos.
Andei até  meus pés não sentirem mais a dor de andar e fui parar na frente de uma casinha, cercada por um exército de gafanhotos que bebiam leite com mel.
-Você vai se perder, Alice. E lembre-se de avisar aos tolos de pedra de que nada aqui é real e que a meia noite, talvez, eles ouçam o canto de uma pássaro negro ou uma melodia ao contrário.
-Isso deveria ser tão irônico... - Eu balbuciei de dentro da minha vergonha de estar dentro da minha própria garganta.
Os gafanhotos deram-me um sinal de partida e diante dos meus olhos afoitos, transformaram-se em besouros prateados, espécimes raros aqueles.
Continuei procurando dentro de mim mesmo, o fel com o qual, constantemente, eu me martirizava e  onde eu escondia minha óbvia falta de sorte e visão.
Haveria de estar em algum lugar!
Um homem carregando uma pequena flauta seguido de um sátiro bem munido de um alaúde censuraram-me por estar atrasada para o casamento.
-Que casamento? - Eu perguntei distante, como se não estivesse dentro de mim.
- O casamento, menina tola, só existe um. - O homem disse, antes de soltar uma nota impetuosa de sua flauta.
- Só acontece um casamento por ano e infelizmente é o errado, você não sabe escolher!- Continuou o sátiro a exemplo de seu companheiro, tirando dessa vez, um trecho melancólico de seu alaúde.
-Eu estou perdida, só sei que comecei com uma viagem pela minha garganta, mas continuei descendo e vi gafanhotos estranhos, nem sei que casamento é esse, meus senhores. - Eu tenti formular alguma coerência dentro da incoerência na qual havia me absorvido.
-Você gosta de preto? - O Homem.
- Claro que não, seu imbecil, ela está vestida de vermelho. - O Sátiro.
-  Ela está com as cores de Ares! - Um sorriso do Homem
-Porque hoje é o dia de Ares, estúpido!! - Um revirar de olhos do Sátiro.
- Eu suponho que tenham escrito meu nome primeiro para eu ser o chefe, não? - O Homem.
- A estória ganha o rumo que quiser, como as estradas que levam a Igreja do casamento.- O Sátiro.
- O CASAMENTO! Estamos atrasados, muito atrasados, tudo bem, garota, ache um vestido preto e esteja o quanto antes na Igreja. - Os dois.
- Mas como acharei um vestido e que caminho devo tomar, onde ficam essas estradas?- Eu.
- As estradas estão em todo o lugar, mas você deve saber onde deve saber a onde quer chegar, adeus, menina tola.! - o Sátiro sorriu enigmático.
    De repente arrastaram a poeira das botas no vento e nunca mais se ouviu falar deles, ou fui eu quem nunca mais ouvi?
     A frente de uma carroça abandonada, achei um vestido de feltro, preto e sóbrio.
Achei bem apropriado para o casamento, mas uma ideia não me abandonava de todo, por que diabos as pessoas deveriam ir de preto, oras, isso era casamento ou uma comitiva de enterro?
-Os dois, minha filha.
    Respondeu-me da escuridão, uma ave de coloração esverdeada.
Meu susto foi tamanho que deixei cair o vestido que imediatamente aderiu a minha pele sem que eu precisasse vesti-lo.
-Estranho...
- Já escolheu o caminho, menina Alice? - Ela sorria como uma avó.
- Falta-lhe os óculos. - Eu não pude me impedir de falar.
    Imediatamente um par de óculos pousaram em seu rosto, aparados por seu longo bico.
- Tudo o que quiser, minha cara, afinal, tudo isso também é seu, estamos dentro de você.
-Como você sabe?
- Eu sei de muitas coisa, Alice, como sei, por exemplo, que você quer ir ao casamento  e não sabe que caminho tomar.
-De fato. - Reconheci, pela primeira vez sentindo carinho por “alguém” dali.
- Simplesmente siga, vai reconhecer o caminho quando chegar lá.
    Eu fiz o que a sorridente ave avó de óculos me disse, desci, desci, desci, sem escadas, sem descidas, sem ladeiras...
Até que passei por um campo aberto, parecia uma página extraída do Kamasutra, havia ali um enorme gigante andrógino deitado, sua face e sua posição indicavam que estava num momento de êxtase e homem e mulheres copulavam em suas coxas, subiam por seu peito e deleitavam-se em sua genitália dupla.
Quando cheguei mais perto, alguém quis me puxar para juntar-me aos meus próprios delírios, respondi que não, que tinha de chegar ao casamento.
O garoto despido e orgulhoso de sua nudez indicou-me um atalho, no qual, eu encontraria um objeto voador vermelho.
Já dentro do objeto, acionei diversos botões, um deles haveria de ser o certo.
Depois de um vôo tímido, entrei na estrada certa, ou seria a errada?
Naquela altura da minha viagem, não importava mais.
Avistei uma grande catedral com sombras góticas, sua fachada estava enfeitada com flores negras e vermelhas.
Um árvore carregava a seguinte inscrição “ aqui morre o amor”, fiquei com medo de continuar, mas segui, mesmo temerosa.
 Havia poucas pessoas na Igreja, um total de 9, além do padre e dos noivos.
A moça exibia um sorriso angelical, mas meu peito queimava, não era justo.
O moço parecia pensar como eu, assim como todos os presentes.
Letras de música atravessavam meus olhos, melodias de Bach, Chopin e também o som cálido dos pássaros de inverno.
    Então.
Não foi nada além de um olhar vazio e doente pousado numa xícara de chá, e a esperança de entender morrendo ali.

Quiça



Eu vou vivendo como o dia vai sumindo,
sem perguntar porquê.
E se um dia por acaso, me perguntarem,
direi que tenho orgulho de não saber.
Porque a ideia que faço de saber vai além do que posso ser.
E esse ser que é coisa atoa,
que vira vexame, sem nunca deixar de o ser.

Vou levando na face,
a falta de cor,
o céu verdejado,
o desleixo e o frescor.
Porque nada no mundo cresce por saber,
E que não cresce, tampouco sabe.
Ah! Deixe de lado a falha da rima mal feita!
Quem me dera só passar e dizer... Quiça!

Os Escolhidos









Desciam pelas encostas, juntos, como cães,
Com medo de perderem-se.
Todos retirantes. De cor, nome, fome e penar.
Exibiam na face murcha e nos lábios roxos, o sorriso triste dos que buscaram em vão a sonhada Canaã.
As crianças alheias a melancolia da tarde magenta e ao sol morrendo no horizonte, penduravam-se as saias em trapilhos das mães.
Iam assim, deixando atrás um rastro de sua sagrada impotência, como formigas serpenteavam pelo chão árido e choroso.
As mulheres, mães sem ventre,
Os homens com a barriga armada de um exército de vermes de toda a sorte.
A tarde sangrava em silêncio e eles seguiam seu destino de só seguir, sem dor que valesse o destino da espécie, sem chão que valesse a dor da carne.
No fundo, deveria ser assim a promessa que Deus lhes fizera, a tal promessa de que existir era bom
Mas Deus não os avisara que para eles, existir deveria ser o mesmo que durar.

Uma Moldura Barroca




As vezes, ele saia a tarde, mas quase sempre esquecia-se de despedir-se de si.
Costumava então, voltar os espelho das horas, buscando o pó dos dias para levar nas botinas pesadas.
Mas isso não é importante.
       A descrição não nos vale nada, desde que não se teça a partir dela o que a mesma, não nos diz.
O fato é que ele estava sentado ao umbral da janela cega, quase estranho quadro.
Sua têmpora apoiada aos joelhos que fraquejavam sob a não-perspectiva da perda.
Ele estava embebecido do escrutínio mágico da ausência.
A esposa viajara com o filho, ainda miúdo, a casa, sem que ninguém a manuseasse, só ouvia os sons de seus passos.
       Era necessária a descrição, para que o quadro sucessivo de imagens fizesse o mínimo de sentido aos seus olhos, que hão de ser tão distraídos  e presunçosos quanto os meus.
Ele, tampouco parecia apto a falar sozinho, sem cair na inocente ideia de que aquilo lhe parecia um absurdo.
   Absurdo não! Ele tinha ciência de que  todos faziam seus monólogos uma vez ou outra,  mas, talvez, por isso mesmo, ele se recusasse a comungar com tais hábitos mundanos.
Simplesmente, porque gostava de ser pioneiro, ainda que isso significasse ser arredio a tudo.
Seus únicos monólogos viviam e germinavam dentro dele e também ali, acabavam.
Nunca ocorrera-lhe a chance de verbalizar seus solilóquios e se a tivesse, provavelmente, não o faria. Porque era de sua natureza sentir o rescaldo após o orgasmo.
O maior de sua vida, o estilhaçar de sua personalidade já tinha sido.
      Agora era marido. Sério. Legítimo. Seguro.
Agora era pai. Amável. Herói. Exemplo.
Mas não teve a ideia de que algo era apenas sobre o que se é e ser dói.
Quando se é, toda a nudez e qualquer ato selvagem é protegido pelas brumas da noite.
Quando se veste o ser, engoma-se o livre, é natural que tão arisco bicho se acue em sua gruta e ali queira ficar.
        Levantando a cabeça e espiando por trás das lentes embaçadas... a janela,os tijolos vitorianos,a grama que crescia sem que as mãos leves de sua esposa a retirasse.
Olhava ainda o céu rindo para o chão e por fim o chão com seus insetos que julgavam pensar quando, na verdade, figuravam apenas como acidentes na invenção divina.
         Ele arfou pesado, antes de soltar uma risada frouxa e auto punitiva que ampliou-se no espaço do ar e de sua respiração:
    - Um escarro de Deus! Todos sem exceção! - Dizia, mais para os seus críticos invisíveis do que para si, pois já havia se convencido disso há muito tempo.
       Lembrou-se de que a mulher o deixara uma garrafa de Uísque e uma caixa de Havanas.
Levantou-se quase que mecanicamente, animal que descobre uma novidade e motiva-se a existir.
Deixando suas frases de efeito duvidoso sobre Deus descansar por um instante, ele levantou uma cortina diáfana, que revelou um quadro de médio porte que ali repousava intacto até ser despertado pelas mãos cheirando a tabaco caro.
   Envoltos pela moldura barroca, dois vultos sorriam diante de um consternado homem com um copo de uísque meio bebido na mão direita.
     Era como novamente ser tragado pelo sorvedouro do passado e não querer perceber-se nele.
Luzes verdes e vermelhas explodiam em sua cabeça enquanto as paredes pareciam sumir, dando lugar a um imenso exército de nuvens.
Ele não estava certo se deveria rir ou chorar.
Rir seria desmistificar a aura inexorável de todo o ocorrido.
E chorar, representaria dar a tudo uma dimensão que ele não queria admitir que pudesse existir.
  Como um simples quadro antigo, manchado, implorando para ser lançado as traças, poderia com seu toque embolorado acender-lhe um desejo cuja chama ele julgara extinta há tanto tempo?
   O único brilho particular do quadro estava mesmo nos sorrisos.
Quase esquecera-se do sorriso que havia adornado seus lábios um dia.
Seria possível que aquele sorriso tão simples e desajeitado houvesse escorrido de sua face e ido repousar esquecido sob suas células?
Ou ele morrera junto com a pele do jovem que fora um dia?
Ou ainda, será que ele se fantasiara do sorriso que hoje nascia em sua boca velha?
Assim austero, assim descrente. Típico daqueles que são sábios e experientes.
Um sorriso conhecedor, próprio daqueles que provaram da botica da vida toda a sorte de remédios, de elixires a venenos.
O Jovem que fora odiava a “ experiência”, detestava imaginar-se como algo menor do que ser “livre”.
     De repente, como se faltassem palavras para decidir o instante, ele desfocou os olhos do quadro e atentou-se para a moldura.
Era dourada, pesada, barroca.

Ele piscou do fundo dos olhos avermelhados.

        Dourada.

Sua respiração falhava a cada piscar dourado.

       Pesada.

Seu corpo vacilava e as pernas pesavam.

       Barroca.
   
Olhos. Respiração. Corpo.

A moldura o envergonhava, porque, embora fosse suntuosa e dramática, como barroca que era, ela também era cínica.
O que a imagem do quadro o provocara, o pasmo, a infantilização dissolvia-se na opulência oca da moldura que o envolvia.
E dentro daquele contraste ele se viu inteiro.
Dentro do paradoxo do quadro, ele viu sua própria condição de dona-de-casa ao contrário.
     Sem perceber que estava despertando, deparou-se com o asco de sua posição atual diante do que fora e do que sentira pelo mundo.
Suas impressões estavam lá fora.
O que havia amado e agora odiava, voltara a enternecer-lhe violentamente.
Por isso, ele havia saído de sua sonolência e resolvido encarar o quadro que tanto evitara olhar.
Porque sabia que se lhe dedicasse mais do que um olhar de relance, poderia apaixonar-se de novo, ainda que não fosse julho.
Pois as coisas aconteciam e só:
    - Acalma-te,coração abusado. - Ele dizia, permitindo-se dessa vez um diálogo rápido consigo, aquele que tanto negara, por ser comum.
Mas sua vontade já havia decidido-se e dali não seria mais a mesma.
   Deixando o copo na mesa central, pôs-se a escrever uma carta-bilhete que não era um torpedo suicida.
Sussurrando uma canção simples, pegou o casaco pesado e fechou a porta atrás de si.
O chão já era outro.
       Quando sua esposa chegou,  notou a ordem imóvel do espaço amplo deslocada apenas pelo bilhete ao lado do copo vazio.
 Com um sorriso terno e maternal, pediu ao filho que fosse ajeitar as bagagens no quarto.
Sozinha, ela reparou num detalhe que havia lhe escapado a principio.
O quadro, sempre tão bem guardado e oculto, encontrava-se despido.
Com a expressão gélida, para logo em seguida, tornar-se lívida. Ela não precisou sequer ler o bilhete para saber.
Então, ele havia decidido por ser o quadro e não a moldura e por caçar os sorrisos que um dia decidira com igual ímpeto, rejeitar.

O Que Eu Queria Era Um Sopro


Era um dia qualquer de verão. Agora, só me lembro de que era verão, porque era a
estação que cheirava o cheiro que o sol tinha quando pousava em seus cabelos.
Ele era o compêndio das coisas que eu jamais seria.
A minha fúria repousada, dormindo em berço quente.
Ele era o golpe maior de uma dor lenta e letárgica que eu não me julgava merecedor
de sentir.
Ele próprio era o verão, com seu cheiro de hortelã-pimenta e estio pela grama.
Ele era os becos escuros repletos de vida e anseios.
As tardes com pôr do sol magenta, música e sonho diante da cortina estendida de céu
e mar.
Ele era a própria explosão do universo, o epigênese de tudo, quando carregado a
morada de Morfeu em seus sonhos mais ternos, eu, como o homem mais pleno do
mundo o embalava e sentia sua respiração trêmula na pele exposta da minha garganta.
Ele era a ambição da chuva de lavar os corpos.
Ele tinha gosto de morango, saliva, orvalho e dúvida.
Ele era a prova de que eu era a pessoa mais repleta de erros que pudera existir.
Mas eu tapara os buracos dos meus defeitos com a sua existência.
E essa presença era o álibi que me eximira de participar da comédia da vida, da qual
eu sequer conhecia o prólogo.
Sua presença me salvava do meu asco pela normalidade,
Eu o amava de um amor sem passado, ou sequer futuro.
E todas as horas que eu passava a seu lado possuiam a hesitação e a breviedade de
um primeiro beijo, a ingênua fragrânciada primeira canção que fui capaz de cantar, com
os lábios secos e o rosto transbordando de fé.
Ele foi pra mim, e ainda o é, a própria imagem de um céu torto ou um paraíso desfeito.
E veio a mim como eu Deus destronado que exalava adoração apenas com o seu bater
de cílios na pele tímida.
E eu, cuja a resignação falhava, a cada tentativa de superá-lo, que fazia da sua
ausência um pretexto para meus atos patéticos e tolos que no fundo, eu sabia,
vinham da minha vulnerabilidade. Em mim, o amor passava como um sopro, uma vida
que por medo esquecera de viver.
Como todas as estórias de amor, a minha não duraria o tempo exato da queda de uma
lágrima.
Quando eu soube que uma chuva de maio não poderia durar eternamente, tampouco
um verão, eu o deixei.
Porque ele queria uma casa com lareira, crianças esperando a ceia e colocando
sapatinhos na janela.
Ele queria uma constelação com seu nome e um casamento num dia em Março.
Eu nunca quis nada.
Nada além de acordar naquele embaraço de pernas e ouvir o seu bocejo, de beber os
seus sorrisos até a embriaguez total, de contar os fios do seu cabelo até que ele me
parasse.
Eu que queria seu pasmo, seu ódio, sua irritação, não estava disposto a aceitar seu
futuro tédio, porque com o meu eterno cansaço, nada poderia lhe oferecer que não
fossem as mesmas promessas dúbias e vazias.
Mas eu sou egoísta o suficiente para dizer que tudo o que eu queria era ele, mas era
também tudo o que eu não ousara ter.
Então ele encontrou alguém que poderia lhe dar o que eu não poderia jamais.
Hoje, ele tem tudo o que sempre quis.Eu nunca terei e isso não parece justo.
De tudo, restou apenas o sopro e a canção.

ahn?

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