Dez



Eu estaria lá agora,se fosse em outros tempos...
Eu saberia exatamente como agir para que tudo se resolvesse,
Talvez eu ainda possuisse algum dom especifíco para  deturpação da visão,
que não fossem meros números,mas o que fazer quando só esses descompassados números veem a sua cabeça?
Como ignorar seu apelo ilógico porém consistente,eu mal posso ouvir agora
Tudo o que fiz de bom ou não permanecerá apenas no ontem
e tudo ao redor soa como um canto de um pássaro profético,
Eu possivelmente,estarei perdido e não encontrarei ninguém que me acolha,
ninguém me servirá um café forte depois que eu sair da tempestade,
ninguém me dirá o quão errado eu posso ser e como minha mediocridade teima em emergir em esferas ao meu redor...
Todos os erros são tão belos e todos os tolos tão certos,
E eu estou sentado no medo,segurando essa maldita lágrima,outra vez!
Porque você não vem com toda a sua força e me destrói...
Não sabe que sou fraco o suficiente para não sujar minhas mãos?
Acaso não sabe que não nasci para isso? que me falta tenacidade,tato,talento...seja lá o que isso signifique?


Eu me afoguei muitas vezes e implorei tantas vezes e fugi da humilhação sendo mais tolo do que se por ventura, se entregasse a ela,
Está tudo tão morno aqui e o céu está aos meus pés e pode dissolver-se a qualquer instante.
Eu estava dentro de um livro,eu sempre estive,mas só agora percebo.
Está ficando tarde,alguns ônibus vermelhos atravessam as ruas
e não estou satisfeito com a noite.

Aviso



Existia uma placa no meio da estrada que dizia que não havia nada além dali e que muito provavelmente os que tentassem contrariar essa verdade plena,perderiam-se a ponto de não enxergar um palmo a frente do nariz.
Quando ela chegou aquela estrada tinha certeza que já havia estado ali,estacionara o carro a poucos metros e agora,observava cada movimento do vento em seus cabelos e cada suspiro da noite,tudo sugeria o fim,mas como poderia ter certeza sobre isso? Como algué poderia ter certeza sobre alguma coisa?
A verdade era, no fim, como todas aquelas estradas levava a coisa alguma e diziam que era o fim,mas ela sabia que não havia fim para nada.
Existiam,milhares de começos... Isso era certo.
Ela decidiu parar de pensar,voltou ao carro e vestiu seu casaco,voltando rapidamente a olhar a estrada que se estendia sob a bruma.
Não haveria problema algum se ela resolvesse simplesmente seguir adiante,talvez muitos de vocês disessem " Havia uma placa ali,dizia para parar,por que ela seguiria?"
Estou,aqui só comigo,imaginando a voz que fariam ao dizer isso,posso ver a cara de vocês...
Bastaria a mim,responder que ela simplesmente não faria isso porque não sabia fazer.
Alguns param por que não sabem continuar,com ela ocorria o mesmo as avessas,ela continuava porque nunca aprendera a ter escrúpulos e parar.
Continuar era sua maior fragilidade perante a vida.
Seu olhar repousava agora,como que adormecido por entre os cílios soberbos em um gesto de extrema inquietação  escondido em freuma.
Ela sabia que de qualquer maneira algo mudaria dali em diante,não pela estrada,pela placa ou qualquer coisa assim...
Mudaria porque ela precisava disso.
Ela jamais voltaria para casa e mesmo a palavra casa agora parecia distante para ela,como uma estória de ninar que a cantavam quando ela ainda possuía um rubi no olho esquerdo e um topázio no direito.Casa.
Nunca teve um lugar para o qual voltar e só agora perto ironicamente do fim,ela percebia como aquilo parecia ser humilhante,sua condição de vítima de tudo aquilo que era, doía.
Ser era obrigatório e ela não queria ser.
Não nascera pra isso e sempre soube...Queria apenas uma cama perdida nas nuvens,
um sorriso ainda que entre parênteses,uma palavra inventada só pra dizer como a vida era importante e uma canção que pudesse aquecê-la como um terno dia de outono que nunca mais chegaria.
Nao haviam muitos motivos pra continuar e ela continuava sem entender qual era a verdadeira motivação de ser ou o que era escondido por essa motivação.
Então a estrada girava e ao redor haviam pessoas que olhavam-se nos espelhos e vomitavam logo em seguida.
A estrada parava no ar e balançava como uma corda qualquer que pairasse no ar...
Ela poderia pular se quisesse,mas ela devia sumariamente continuar,era o que salvaria sua alma de qualquer ma futuro,salvaria tudo que pudesse ser salvo,talvez salvasse seu coração atrofiado também.
A estrada diminuia rapidamente e ela sabia que iria cair,mas não se importava.
O ar a afogava em golfadas frias,ela sentia-se parte de tudo...como se ali no seu derradeiro momento,pudesse ter uma compreensão de tudo e de como estivera enganada até então e de como todos estiveram enganados...fechou os olhos deixando a noite cobri-lá e cuidar dela.
Todos estavam enganados...não era mesmo o fim.
Havia uma placa suspensa no ar:


" Viver é cair constantemente"

Um desejo e o Talvez


Queria ter uma vida boa,depois de um dia difícil.
Ter um rio aos meus pés e recusar qualquer coisa que fosse menos que isso.
Mas não consigo terminar e ainda perco sempre o que não tenho.
Era isso? Era só uma casa vazia no fim de uma rua  de Outono?
Era tudo o que eu imaginava e fugia de tentar ver?
Eu não ouço os barulhos,acho que perdi meus ouvidos...
Não posso sequer ouvir o eco,talvez não possa falar mais! Não!
Isso foi um grito? Eu posso ver de fora,todas as goteiras que alagam aquela casa,sim eu posso.
Eu estou tão cansada de estar aqui presa nesta verdade,estou tão cansada...
Por favor,nós poderíamos conversar, sim?
Então eu te contaria as estórias dos sapos que tocam harpas e depois quando estivessemos cansados de tudo poderiamos descansar numa casca de noz,como os insetos fazem e talvez quando acordassemos,o lugar seria outro.
Ah! Deixe-me sair daqui! Eu preciso ver essas coisas que a toda hora me falam,deixe-me sentir por mim,certo?
Você tem algum livro? Tem um chá? Eu preciso desconsertar essa vida,antes que esse pacto me absorva por inteiro.
Quando eu ía a Igreja,esqueceram de contar-me que o demônio vestia-se de solidão para fazer companhia aos iludidos.
Você pode me ajudar? 
Ache uma luz,pode ser um vagalume qualquer.
Ache um lugar onde tenha uma coruja cantando o tempo todo e altos pinheiros para fechar a noite como uma cortina.
Por favor,tire essa arma de perto de mim... Eu gosto de adagas,não dessas armas sujas de pólvora!
Se quiser me matar,use o belo e o cruel,não o mundano e fácil.Por favor!
Isso não está certo,eu não poderia estar aqui,mas aproxima-se o grande final de tudo e sempre haverão grandes finais.
Eu queria acreditar em Deus,mas está muito difícil com essa arma me observando.
Mas eu preciso ver a noite,ver que mundo deixarei tão cedo...eu preciso reinar em mim.
Mas não posso deixar de temer e querer tanto,por que?
Nós poderíamos compor uma canção,não acha?
Que falasse de um dia triste onde alguém plantava cactos na praia,e eles floresciam,porque nada precisava ter sentido.
Nesses dias,nada parece ter sentido,mesmo.
Só a pólvora.

O que você vê?



Sou uma caricatura injusta de mim mesma.
Um rascunho feito numa noite quente por um rosto expelindo lágrimas frias
Todas as metáforas pobres e desconexas
Que qualquer escritor do bar da esquina poderia  criar e parecer ousado
Sou toda essa infâmia e cansaço
Que pode te engolir e desordenar seu passos certos,ou talvez não.


Foge-me as coisas eternas.
Fica aqui,somente o perecível,o falho,o laço desatado,a vulnerabilidade do Mundo.
Quero ser tanto,que me engasgo no dia.
Vejo os desenhos mal pintados e penso nas cores que não existem,só elas importam realmente.
Tenho por mim,que me tornei um desejo inacabado.


Lágrimas.
Minhas lágrimas carecem de expressão e persuasão.
é mais difícil chorar em um dia de sol,daqui pra frente será pior,eu sei... como sei!
Os dias de chuva escondem.
Os dias de sol,fazem arder em nós o sal e o amargo do pranto confuso.




Virei uma paródia malfeita e corrosiva  da minha canção particular.


Leia-me.


Beba-me.


Degluta-me.




Diga o que vê,além da sua própria fome de se ver em mim?



2


Ele não tinha horários,
Mas costumava vir a noite.
Seu corpo ágil serpenteava
por entre as pesadas mantas
e a puxava conta si com
um ato entre mavioso e violento.
Eles viviam sempre em meio 
a paradoxos.


Tomavam-se 
Como duas crianças que descobriam
esconderijos secretos na
Nudez sagrada o outro.
Nunca perguntavam-se sobre o destino...


Ele sabia que um dia ela partiria.
Ela era apenas um dia agradável de maio.
Daqueles feitos para durar bem pouco

Não podemos pedir a um dia que dure mais do que o permitido.
Quando um agradável dia de maio estende-se,
ele poderá tornar-se escuro e distante ou
você perderá a ternura que lhe devota e passará a odiá-lo.


Era assim que se amavam.
Ele a ela em um silêncio penitente,quebrado apenas pela volúpia.
Ela a ele por lhe dar razões para permanecer embora soubesse que ela fora feita para
andar,como esses espíritos do ar.
Porem se em frêmito as carnes encontravam-se era ali que algo maior que o amor era testemunhado.
Eles fariam estremecer o Céu
E comover o Inferno.


2




Dois amantes emanando liberdade,urro e secreção.
Cansaço e posse.
Ali.


Um segundo.
Livres,para serem os amantes que nunca mais seriam.


O Limiar



00:36:07


Queria escrever um conto de natal que enternecesse o coração da minha mãe e me fizesse acreditar um pouco mais nisso tudo.
Mas eu não posso.
Queria possuir essa fúria lamacenta e questionadora,mas tudo em mim e fragilidade.
Queria avisar a todos que a estação já passou,mas o trem continua indefinidamente...
O Natal é feito de pessoas egoístas.
Ninguém pensa naqueles que esperam um presente que nunca  chega e que não desistem de esperar,ainda que isso resulte em nada.
Se eu deixasse de pensar em duas cores,talvez eu compreendesse aqueles que falam sobre milagres.
Eu ouvi alguém dizer que "só os loucos estão seguros".
De certa maneira,acreditei nisto desde sempre.
Olhar o céu sangrando é triste,denso e mórbido;
Mas eu sentia na tarde o sabor marrom de um pêssego recém colhido.
Tardes pêssegos eram raras.
Era doce ser esquecido nessas tardes.
Eu deixara de esperar por presentes,poemas e bolos de mel há muito tempo.
Ainda existia,entretanto, uma menina de olhos grandes e frios que esperava por eles,ainda que sen esperar.
Essa menina tinha cisnes no estômago  costuma rezar em altares a beira do abismo.
Ninguém questionava esse hábito.
Ela ainda esperava os malditos presentes.
Eu poderia dizer-lhe que era tolice,mas ela apenas taparia os ouvidos e me obrigaria a silenciar.


01:10:33


Não consigo escrever um conto de Natal terno,estremeado de afeto,laços e vinho quente.
Contento-me em ouvir uma Cítara ao longe  e deixar passar a chuva.
O Natal chegaria irremediavelmente,assim como as contas e os pombos do pátio da Igreja.
Quando os sinos tocassem mostrando o ínicio das festas,
Eu tomaria carona com qualquer primeira estrela da noite e antes que pudessem achar-me,estaria dentro de um vagalume ou em qualquer lugar onde eu pudesse estar sã.
Chegando lá,a menina do quadro iria querer me expulsar e com razão,afinal eu estaria invadindo o seu lar.
Hora ou outra,ela entenderia.
Flaria em uma língua estranha,talvez uma língua só compreensível para garotas de olhos grandes e tristes que habitavam quadros passando a habitar vagalumes.
Estranha ou não,ela diria:
-Quando nascemos nos fazem loucos e quentes,se não fosse assim,cantaríamos como pintassilgos uivariamos como lobos.
Somos todos loucos,Sofia! Todos loucos!
Guarde sua pouca sanidade em cada gotícula de ar que expelires.
Pudesse eu estar sã e fria...
Aqui,você ficará sã,até a loucura do mundo ir embora.Estará segura aqui.
-Mas hoje é noite de Natal,eu preciso escrever um conto  sobre a loucura,o sonho,os presentes...
Eu preciso voltar!
-Por que voltar se aqui estará segura e fria?- Ela sorria fazendo aquilo parecer fácil.
-A ceia...meu pai...histórias... minha mãe...canções...Goodnight...Piggies...É importante...não é?-Eu cambaleava por dentro.
-Não é. 
Lacônica.
-Devia ser...Eu preciso tomar banho... está tarde...Tenho que devolver os botões do Francesco!
-Você não tem para onde voltar,você não precisa ser amada e muito menos precisa de ceias.
É um sonho.Você morreu,Sofia.
Ninguém a espera,não agora.
-É mentira! Eu não posso simplesmente deixar de existir como um raio imbecil que aparece para logo sumir.
Eu tenho um motivo pra viver!Preciso escrever um conto de Natal!


. . . .


Ela para de escrever,prevendo que eu logo saberia de sua existência.
Ela poderia prever qualquer coisa.


. . . .


-Já está sendo escrito um conto de Natal.
-Sim,mas não é meu!
-É sobre você.


. . . .


01:40:20


Ainda busco minha sanidade.

Rua das Luzes



Ele não se desgrudava do pequeno embrulho há muito tempo,todos indagavam-se sobre a origem ou finalidade daquilo.
Mas como todas as horas vencem o calor dos dias,o embrulho continuava ali com ele.
Um dia eu mesma perguntei-lhe sobre isso.
Ele sorriu entre singelo e melancólioco e disse-me por entre os óculos de aro dourado,que era somente um "presente de natal".
Fiquei em silêncio a procura de um entendimento que não vinha.
Qual importância deveria ter aquele "presente de natal".
Como ser ousado era uma forma de fazer-se entender melhor a solidão,
Com a ânsia de um gato no muro,perguntei-lhe o que havia ali dentro.
"-Sonhos talvez,talvez medos...mas acima de tudo expectativas!"
Dessa vez sem dizer qualquer despedida os ao menos dar sinal de que partiria com um leve inclinar de cabeça... Saiu soturno pela rua enquanto as luzes desafiavam-se no céu.
Eu já tinha passado pela rua das luzes,mas era tudo mentira ali.
Eu sabia examente tudo aquilo que precisava saber,
Sabia exatamente aquilo que eu nascera pra ser...
Mas de repente um encontro casual com um senhor de olhos de coruja e de voz grave havia me deixado extasiada,tão extasiada a ponto de não reparar que ele havia me deixado seu pequeno presente de natal.
Pois sim,ele esquecera.
Vi que ele não havia ainda terminado de cruzar a rua das luzes.
"-Espere! Isso é seu!"
Ele voltou-se em um só pé,tirou o chapéu da cabeça deixando a mostra seus cabelos cobreados enquanto deixava um sorriso compreensivo bailar nos olhos e expandir-se para os lábios,mas os sorrisos dos olhos são sempre mais verdadeiros.
"-É seu agora.Entendi porque ele foi me dado de maneira tão estranha e há tanto tempo,somente para que eu tivesse a oportunidade de te entregar em uma noite de véspera de Natal como hoje.
Servirá mais pra você do que pra mim,agora.Adeus!"
Quinze.Prédio.Andar.
Não.
Minha casa nunca fora cenário de algo tão inquietante.
Abrir.
Dessamarrei as fitas vermelhas,sorvi o ar frio daquela noite quente e esperei que meu coração não se dissolvesse naquele hálito.
Era só uma caixa afinal,por mais envolta em mistério que estivesse por eu ter lhe atribuído isso,era uma caixa e não poderia fugir disso.
como nós.
Mas naquela caixa havia apenas uma carta meio borrada e triste.
Suspirei.Mantenha.
"Se você estiver lendo isso agora,quer dizer que consegui meu intuito de simplesmente chegar até você.
Quando recebi essa caixa vazia também não compreendi direito o motivo de me a terem dado.
Ora,o que eu tinha de especial para recebê-la?
Antecipo a sua resposta,nada.
Porém para aquele senhor que me entregou,eu tinha muito de especial.
Agora você poderá indagar-se sobre o valor de uma caixa vazia?
E quanto ao valor de todas as coisas vazias?
De uma vida vazia talvez?
Provavelmente se você recebeu isso,é porque não tem nada e quero te livrar disto,assim como você livrará alguém num dia de véspera de Natal como este...
Se você apesar de tudo não compreendeu o sentido disto.
Conforme-se,essa coisa de sentido foi inventado pelos infelizes para fazer de todos iguais a eles e sofrerem menos assim.
Nós somos como caixas,depende de você aquilo que você coloca dentro si.
Você possui este presente agora,mas antes já possuia a si e poderia fazer com isso o que bem entendesse.
Mas se precisaram te alertar,é porque precisava que descobrissem por você,mas saiba que tudo está adormecido dentro de você.Você tem coragem e ousadia de despertar?"
Minha caixa está comigo até hoje.
Quem será a próxima Eleanor Rigby a quem terei de entregá-la?



ahn?

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