Palavras de desamor


Pagava sempre o preço por querer demais das coisas, aspirar por segredos velados e ilusões caídas. Ela nunca seria amada. Sentia-se como Psiquê quando a beira do penhasco íngreme. Será que um dia ela beberia o néctar divino ou a menos teria asas para abandonar a Terra e pertencer aos ventos? Alguém algum dia sentiria piedade de sua frágil alma que podia se partir repentinamente como partem-se as asas de borboleta?
Apenas queria conseguir parar de infligir dor a si mesma, queria parar de rasga as carnes com as unhas sujas, queria parar de almejar pelo infinito. O infinito nunca quisera ter com ela. Deus nunca mostrara sua face mais cândida. Nada ali poderia salvá-la da queda. Ela nunca seria amada.
O que há de sólido numa vida não iluminada pela luz ofuscante do amor? O que nas almas senão a pureza da ternura? Por que o mundo lhe era tão hostil? Por que não poderia despertar uma torrente de sentimentos ternos em alguém? Por que vivia sempre no quase, no talvez? Por que seu amor era ultrajado, deixado nas encostas e levado pelo vento? Por que não reconheciam sua procura, por que não lhe brindavam com os louros da redenção? Por que não lhe dedicavam uma ária, um madrigal? Por que tinha que viver na unilateralidade? Por que tinha que fingir força, fingir uma miríade de outros nobres princípios? Por que lhe era destinado o falho? Por que não gastavam palavras doces com ela? Ela nunca seria amada. Era sua sina perambular pelos confins da Terra, encontrando muitos que ouviriam sua palavras e seus cantos. Era sua sina encontrar alguns que a admirariam pelo que ela aparentava ser, mas que não ousariam amá-la pelo que era.
Ela sabia que vivia uma ilusão, ela sabia que seu coração sangraria milhares de vezes antes que encontrasse o elixir que a redimiria de todos os seus pecados. Ela, entretanto, não diria inverdades. Ela amaria mesmo que amar lhe custasse o sal das lágrimas, ela sofreria a dor dos desesperados e algum dia, quando a Grande Mãe acolhesse suas preces, ela descobriria seu caminho e toda a dor de qualquer rejeição se transformaria na força necessária para erguer suas asas e voltar ao seu lar.
Mesmo que levasse tempo, mesmo que lhe custasse os últimos lampejos de luz, mesmo que nunca fosse amada, beberia da fonte de vida eterna e seu canto ecoaria pelo prados, alimentando todas as almas famintas e sedentas que esperam por cartas que nunca chegarão.

Cólera

                        
                             Luz bruxeleante tingindo um quarto parisiense e sob seu escrutínio um jovem escritor de folhetins baratos suspirava em profundo speelen:
- Não há nenhuma esperança aqui, meu caro. As fragéis linhas que a sustentavam romperam-se há tanto que ninguém lembra-se exatamente de sua forma.
Eu costuma ouvir a todos, os de fala macia e os de timbre arisco, mas eu perdi o discernimento necessário para diferenciar vozes. Exceto no que diz respeito as que me acompanham por dentro. Essas sempre que possível se pronunciam. A vida de alguém como eu nao é muito diferente da vida das floristas e dos bêbados espalhados por todos os botecos e cassinos dessa cidade enferma.
                          Entenda, criança: Todos nós estamos fadados a cólera, a lepra, ao tédio e a corrupção.Não há um nômade nessa vida que não tenha como fim a escassez e a doença. Eu sei que não costumam ensinar isso nos hospitais, sanatórios, escolas e repartições públicas. Mas como sou um louco assumido, posso dizer-lhe sobre todas as coisas que corariam a maçã do rosto da mais depravada e decaída meretriz.
                           A pior notícia que eu posso te dar não se compara as coisas que já sabemos e procuramos ignorar. Não há beleza aqui, rapaz, mas também não há beleza em lugar algum e em pessoa alguma.
                          O que amamos nas pessoas não é a parte que julgamos bela, o que amamos em cada um  é nossa fraqueza exposta em carne e sangue e anunciada em vísceras. O que amamos e queremos é a sordidez e a vilania.
                         Eu cansei de estar aqui, meu jovem... Mas eu continuo por covardia, admito. Continuar é minha maior prova de fraqueza, fraqueza das ditas espirituais, não só nos ossos. E eu te escrevo, agora, as vésperas de partir, porque me veio de repente a ideia mórbida de que ninguém lembrará os meus pesares e memórias quando eu partir e veio-me assim por estalo, a impressão de que caberá apenas a mim a tarefa de limpar os destroços. Não há mais ilusão aqui também, mas não se assuste o que te comunico nesses gestos pobres não é tristeza, que esta já não sinto, é antes um profundo e sofisticado nojo, produto talvez das vielas imundas dessa cidade prostituta. Nojo latente de toda a criatura que sai por aí a disseminar crenças e construir templos em nome de uma honra corrompida. Eu não tenho mais medo, jovem. 

                        No fim de tudo somos todos crianças brincando de imaginar monstros no carrossel do mundo. Eu estou tentanto seguir a linha, estou preenchendo os dias com ácido e poesia, mas a vontade de sangue as vezes subrepuja meus instintos civis. Quando a fera vem a superfície e o caos reina é difícil florescer as acácias.Eu ainda tenho acácia nas mãos, mas a serpente sagrada dorme em sono leve sob os meus pés.

Asas de Ícaro




Sejamos honestas pelo menos pelo curto tempo que nos resta neste meio-fio de intrigas que é a vida.
Não tenho como lutar contra você, simplesmente porque não temos as mesmas armas, seria leviano da minha parte dizer que não possuo arma alguma, até as possuo, mas são ínfimas perto das suas, admito.
Eu não quero ouvir seu nome porque me soa mais fatal do que qualquer canto de pássaro de mau agouro no silenciar das horas.
Tenho grande vontade de matar-lhe a presença viscosa que se embrenhou pelos meus poros.
Acontece que para matar-te, precisara antes extinguir em mim o que há de humano e não sei se sou capaz de tão grande ousadia.
Há muito mais do seu fantasma aqui do que eu qualquer lugar, e não quero te ceder nada, não quero que me veja, não quero sentir-me fraca e estéril perante a luz.
Não quero.
Embora saiba que você não é feita de luz.
Quem é feito de luz pode até descer as zonas infernais, mas sempre possuirá uma réstia daquilo que antes fora.
Mas quem nasceu para os escombros, como poderá continuar?
Quem nasceu para o alarde, como poderá silenciar?
Eu não sei como continuarei, falta-me fé no mundo, grandes olhos sadios. Falta-me um pouco da vida que insistem em me ordenar, desregrar e por vezes roubar.
Meus versos antes saídos da mais pura inocência e ardor, agora saem um tanto ressabiados, tímidos e reticentes.
Que dirá o mundo deles?
O que dirá você de mim?
Sei que não tens senão um ódio sem vista de mim. Sei que me odeias pelo posto e não pela pessoa, sei, aliás, que todos os meus desafetos me odeiam pelas máscaras e falas bem interpretadas, sutis, seguras e não pela sensível e medrosa criatura que se põe pequena diante ao mistério do mundo.
Não, a cabeça que querem exposta na praça é a da rainha soberba e cínica, não da criança prematura, com a ossada frágil e com medo de ser constantemente motivo de chacota e incomodo.
Eu entendo a imagem que os outros têm de mim, mas se todos penetrassem no interior soturno do ser que me habita a alma, veriam todas as flores que tento podar.
Encontrariam as árias que danço quando ninguém vê.
As linhas dos livros que me enternecem o coração.
Veriam as nuances de luzes de tonalidades abstratas flutuando dentro de mim.
Talvez isso ainda não tirasse o asco que encobre toda a minha persona non grata, mas a tornaria mais humana e por assim ser, susceptível as falhas a que todos estamos sujeitos.
Agora, presa as regras do dia, a espera inútil em tudo que não seja óbvio, previsível e esperado, eu confesso que tenho medo de você.
Medo de que qualquer ação tua premeditada ou não possa roubar-me o universo, medo que qualquer palavra que gere esperança possa sufocar minha alegria oscilante.
Eu temo porque os que não temem já enterraram suas asas, e eu ainda tenho asas mesmo que esgarçadas pelos altos vôos e pelas quedas maiores ainda.
Não me retire o sol porque sem ele eu residiria no fundo do oceano e partiria todo o núcleo da Terra ao meio com minhas intempéries.
Não me tire a luz, pois eu obrigaria todos os mortais a reaprender a ver no mais profundo e derradeiro breu.
Tudo o que escrevo, sinto e te mando por cartas não-escritas não são doçuras, singelezas, pedidos, súplicas ou coisas dessa ordem.
São ameaças.
Não serei um novo Ícaro de asas partidas e flamejadas por almejar um pouco do fulgor do sol.
Embora tão santa como o desapontar de um novo dia, nas minhas ondas eu escondo monstros e desfiladeiros.


River V


No Ganges, no Nilo, no Danúbio ou no Prata? Em qual grande rio do antigo mundo perdi minha clara essência.
Essência das coisas deste mundo, essência do que é além. Essência do que virá e sangrará.
Terá sido no Tigre, no Eufrates ou no subliminar Estinge?
Onde eu perdi a vida?
Em que arrepio, em que febre? Em que extrema renúncia? Em que golpe repentino de fúria?
Eu vim andando por tantas terras sem nome, por tantos caminhos descarpados.
Eu vim tombando com pés de Édipo entre os baduínos, ouvindo o canto das harpias e das sereias. Eu vim esperando achar as Hespérides.
Mas acima de tudo, eu vim como quem tem sede do que não se bebe, fome do que não se oferta e tem ganas de vencer o horizonte vacilante.
Eu extraí do Ganges toda a iluminação e aniquilação do "eu" que pregavam os homens das montanhas, eu vi Shiva dançar entre os templos do Hindu Kush e fui feliz.
Eu sorvi do Nilo a força de mil braços cobreados e toda a fé da grande ísis. Todo o zelo e abnegação da esposa-mãe de Osíris.
Eu bebi do Danúbio o sangue rubro-anil  de todas as batalhas do passado, deleite-me com a ascensão dos reis e a queda dos tiranos.
Do Prata, eu ressuscitei mil virgens sacrificadas em honra ao sol e de seus corpos eu fiz estrelas.
Mas o que eu perdi e não volta, o que é exato e eu ignorava é a minha própria centelha divina, é o nexo que preferi ignorar.
Agora o Estinge me espera. Cabe ao sábio Susserano do Mundo Inferior decidir se mereço estadia infinda nos Campos Elísios ou se devo perecer eternamente em meio ao caos do Tártaro.
No entanto, a decisão entre respirar a vida ou sufocá-la fora sempre minha.

Mono-diálogos


Olha, escuta..
Eu passei muitas horas pensando no que eu poderia te dizer. Na verdade,
eu passei muitos anos nessas horas pensando em uma frase que não quer sair.
E essa frase que ficou calada por tanto tempo, agora perto de ser verbalizada, se mostra tímida, encolhida em algum canto menos iluminado nas minhas pregas vocais.
Olha, eu podia te dizer tanta coisa.. tanta frase elaborada, ritmica, bem construida.
Tanta verdade, tanta mentira eu poderia te dizer.
Mas eu não quero, sabe? Porque pra mim essas coisas sempre soaram tão fáceis e tão clichês de comercial. Eu sei que ninguém se importa com isso, tampouco você se importa, mas.. pra mim isso representa muito, foi do que fugi a vida toda.. do óbvio, do banal, das coisas facéis e inúteis.
Eu não quero que você pense que não me importo, mas sempre medi muito bem as coisas que eu te disse, não apenas a você, mas a todos. Não, não é por ser egoísta. Quem disse que estou negando que eu o seja? Sei que pensa que sou apenas um narcisista bem articulado, mas nunca foi só isso.. se fosse não estaria aqui hoje.
Aceita um drops? Acho que preciso falar de uma vez, se não quiser ouvir, mesmo que me arda.. falarei, porque eu sei que no fundo, você queria que eu te dissesse tudo isso, desde o começo indecifravelmente você esperava pela oportunidade de me ver implorar.
Olha, meu bem, nunca fui o tipo de sujeito que alguma família burguesa pudesse tolerar, antes, eu era aquele tipo teddy boy inglês anos 50 que pensava que Little Richard e Buddy Holly eram muito melhores do que Elvis, e sim, eu sei que sua família não gostava das minhas roupas. Mas eu dizia entre um solo de piano de Schubert e uma nota de banjo vinda das casas noturnas "O que é a roupa, baby? Senão uma capa, um disfarce.. uma mentira?"
Não tenho foco, tá certo. É que você com esse olhar de céu morrendo me deixa com um gosto de nostalgia e blues na boca, e eu não vou conseguir concluir assim, como eu queria.
Claro que eu sei que estava me desviando do assunto, mas você não acha que a gente sempre encontra um jeito certo de dizer as coisas erradas, mesmo sem dizê-las?
Deve ser esse lance de sincronicidade.
Mas o velho Crowley não sabia que suas teorias ocultistas iriam me ajudar a te falar o que tanto desejo. No final as minhas ideias nem são mais minhas são da noite e eu sou o mundo inteiro, o mundo inteiro que eu vejo em você.
É que eu não queria mesmo que você me entendesse mal, sabe.. é por dentro que me arde, talvez uma veia entupida, uma garrafa de veneno de rato quebrada no meio de uma articulação, uma puta que não me ensinou as artes da vida direito quando jovem, uma neblina na volta de uma apresentação de circo, circo russo.. eu acho.
Não, não vai ainda! Tá frio lá fora, eu acho que ainda tenho uma garrafa de coca-cola, mas não diet, me diz que você parou com essa compulsão por contar calorias e kilometros..
Diz que não esqueceu de alimentar os pássaros e de polir o espelho do quarto.
Sabe, essa coisa de estar longe me afetou bastante, ando meio sem casa, onde eu paro, paro simplesmente.
Acho que perdi a rotina de ser eu mesmo, pra ser um rosto sem alma no meio de tantos.
No meio de tantos que fingem frieza, que acham que a hostilidade alimenta a mente e que vivem pra pedir desculpas pelas chagas que infligiram em si próprios.
Eu sei que você acha uma chatice tudo o que eu falo, mas quando nos conhecemos  você dizia que era esse meu charme nem-tão-provínciano mas semi-cosmopolita que te impressionara de imediato. E eu tenho certeza que eu te olharia de novo naquela tarde, em todas as outras tardes. Você costumava dizer que eu tirava poesia como erva daninha da terra, que as vezes escrever me fazia mal e era quando eu preferia ir pra casa cedo, comer qualquer coisa sem gosto e dormir com o pão do ressentimento colado ao céu da boca.
Mas, querida.. olha pra mim, não.. sem essa petulância forçada!
O que me matava naquelas noites de sol eram os teus silêncios.
Os teus silêncios sempre foram a minha sentença de morte.
Porque em silêncio o teu mundo que já era um mistério que eu era obrigado a observar de soslaio, se tornava ainda mais denso.
Eu não podia jamais adentrar o território santo dos teus silêncios.
Ali, eu era o exilado sem exílio.. porque, sabe bem, que sem você, eu não tinha exatamente um lugar para me deixar ficar, nunca tive.
Por isso, eu tenho essa coisa pra te dizer, eu sei que não vai mais ficar em silêncio mesmo que queira fazê-lo.
Eu esparava que você soubesse que quando eu dizia "talvez" eu queria que você ouvisse o infinito... E quando eu fingia não me importar, eu só queria que me abraçasse, não quando você quisesse, mas quando sentisse que eu precisasse.
Que tivesse mais empatia, como eu que morro de dores por sofrer das dores dos outros e as minhas mesmo em menor escala. Não, não estou te julgando, por favor,
Acaso eu faria isso? Com que intenção supõe isso?
Bebe a tua coca, vai amanhecer e eu não te disse nada, nada do que realmente importava.
Mas o dia dirá, um dia ele sempre diz. Fica. Apenas.

Oração Noturna


Eu não vou voltar.
Nem que eu quisesse eu poderia, todas as lágrimas da véspera já secaram antes que eu pudesse colher todas as palavras não-ditas ou fugidas.
Mas eu não preciso ouvi-las, pois tenho o péssimo hábito de lê-las de antemão nos olhares que capto de soslaio quando entretida em meus pensamentos, deixo minha liberdade voar.
Já não escondo minha falta de trato no convívio com os amigos e não faço voz mansa pra pedir qualquer gole de bebida, eu vou vivendo.
E quando me indagam sobre o valor da vida, meu ar antes soturno e meditativo agora se alterna em paranóia e alegria convulsa.
E respondo a todos que quiserem ouvir que posso muito bem viver sem escrever.. mas que ah! não me deixem sem poesia.. ou definho.
E hoje em meio a turbulência da paz e o plenitude do caos, eu quero cantar a vida como quem pula poças e se deixa molhar.
Quero pedir mais um dia de amor, mais um milhão de sorrisos para destribuir pelas ruas que floreiam meu passo ritmado e dezenas de gerânios para destribuir as crianças que passam por mim.
Quero pedir apenas um copo de chá, um cobertor quente e certas mãos firmes envolvendo minha cintura.
Quero ver o céu, cantar todas as músicas e rir dos sábios e dos tolos.
Eu vou vivendo, procurando um ritmo, uma cor, um lugar onde parar.. um tema para um conto.
Guardando uma dúvida aqui, um papel acolá e uma ânsia incontrolável de ver, ser e estar.
Vou vivendo sobrevivendo as farpas, destribuindo vespas e fechando arestas.
Hoje, eu quero  aqueles que me interessam perto.. mesmo que distantes.

Eu quero o conflito e o paradoxo de Platão, quero a lascívia de Greta Garbo e a paixão pela descoberta que uma criança tem ao tocar pela vez primeira em um caracol.
E que os deuses nunca permitam que eu perca a vontade de abrir os olhos a vida e que eu nunca caia na rotina de me ser, para que eu seja sempre múltipla embora constante e que dentro do meu coração (cofre pleno) esteja sempre em liberdade e repouso tudo aquilo que eu amo.

Os olhos de Zéfiro


Você pode gritar até sua garganta pegar fogo e seus olhos esvaziarem-se de sentidos,
Mas isso não surtirá qualquer efeito desejado.
Você pode arrancar toda a carne que cobre teus fragéis ossos e deixar que os chacais a devorem quando a encontrarem descansando sobre o véu da lua, 

Mas eu ainda estarei pairando acima e além de todas as suas parcas  filosofias.
Se beberes de meu sangue,  beberás do mais poderoso e corrosivo veneno-elixir.
Mas antes que macules minha pele com seu dentes sujos, abrirei sua mente e espalharei minha doença nela.
Acredite, você pode culpar Deus pelo erro do mundo, mas tuas palavras são tão-somente suas palavras e nada surgirá do pó a partir do teu verbo desajeitado.
Você pode cobrir a cabeça para dormir, pode encontrar-me na morada de Hypnos, mas eu ando com os espíritos do mar e das águas e tu vicejas na terra, erguendo os tímidos olhos até as alturas onde me elevo.
Porque não ouvimos a mesma música. Eu ouço as liras, as trovas e leio a poesia do mundo em cada carvalho ou olhar lívido de criança, eu sinto mais e meus olhos tremem em frenesi diante da vida.
Você rasteja entre os cacos da sua existência, vivendo de migalhas e brincando de chiaro- escuro comigo, você não me atormenta, mas se atormenta, você esbarra nos meus pés e engole a saliva ao me ver, você tem medo de mim e sabe, você quer tanto e tanto mas finge e eu sei da sua mentira cada vez que num cruzar de cílios vejo o silenciar gritado das sua pálpebras.
Eu andei procurando uma canção de raiva que me ligasse a você, mas você come a neblina dos becos e a sujeira metafísica do seu coração torpe.
Quero arrancar a luz caridosa dos seus olhos cíclicos, olhos de Parca.
Eu quero te conhecer na raíz, no apogeu da sua inanidade.. eu quero olhar nos seus olhos e te ver como minha igual, minha alma-irmã, quero esquecer que muito de você sou eu.

Bilhete do Abismo




1, 2, 3.

3?

...
6.

9.

Muitos.
Preciso lembrar-me de um lugar.
Muito mais que isso, preciso lembrar-me de uma vida toda que perdi na greta de uma porta imponente e antiga.
Preciso respirar, aspirar, respirar, negar a doença,  dizer sim a vida.
Mas antes de tudo isso, eu preciso mesmo e talvez com mais verdade, pegar o livro ilustrado com o velho professor lunático de tweed mostarda e perguntar-lhe se por acaso sua musa costuma comer sementes de árvores com cara de monstros e voar com silfídes vermelhas por um bosque qualquer.
Eu preciso sentir o gás escorrer pela minha garganta e ver a fumaça expelida pelas minhas narinas nas noites frias.
Eu preciso reaprender sobre latim e  botânica antes de ir embora.
Eu preciso beijar os seus lábios antes que a alvorada floresça e eu esqueça seu nome.
Eu preciso me lembrar como era chorar, lembrar como era viver sem as cinzas de um rancor prematuro.
Eu quero ter a consciência da morte, o pungente e letal veneno correndo ébrio pelas minhas veias, invadindo cada milímetro da minha corrente sanguínea já infectada pelo vírus.
Eu preciso cantar algumas canções novamente, para guardá-las no ar por um tempo.. elas sobreviverão a mim.
Quisera por um inócuo momento saber o sentido amplo e sereno da liberdade.
Porque pra mim, ela sempre foi um pássaro de asas partidas.
Quisera então que a frágil ave levasse-me em seu vôo intrépido pelos ares do infinito azul.
Quisera que meus olhos secos produzissem a lágrima derradeira ao ler Sylvia Plath uma vez mais.
Quisera sentir todos os sentimentos do mundo, dos mais torpes e profanos aos mais imaculados e santos e dizer todas as mentiras e verdades que eu poderia dizer as pessoas que amei e odiei.
Quisera tremer no frenesi de milhões de orgasmos, todos os orgamos de todas as pessoas do universo, das prostitutas virgens às freiras corrompidas.
E o gozo do mundo explodiria em minhas células corroídas e atrofiadas antes que a vida abandonasse de vez esse coração abusado.
Eu teria então, ao mesmo tempo, a dor e o fulgor da vida, estando a um suspiro da morte.
Eu descobriria a Atlântida escondida, dançaria com as valkírias e com os eunucos persas.
Eu suspiraria segredos aos jacobinos e acabaria na guilhotina, eu fumaria o ópio dos poetas malditos e satânicos e comungaria dos seus segredos sobre a morte que agora vejo pela janela.
Uma águia sangra no horizonte e como uma ironia ou uma charada mal concebida, eu sangro e enfraqueço.
Minha fraqueza é subjetiva e imoral.
Por querer ser todos, eu descobri a criatura estranha e intempestiva que sempre habitou dentro de mim.. sem que eu desse notícia dela.
Eu que quis conhecer o mundo com os pés ardendo e os olhos cansados, o conheci através de pardas páginas mudas e versos esquecidos.
Eu que tanto amei a morte, descobri a vida.
E no último suspiro, eu entendi tudo.


...











9.

Efeito


Você deixou moedas no meu tapete.
Então, você bateu a porta e deixou a batida ecoando nos meus ouvidos por horas.
Você deixou marcas invisíveis a olho nu na minha pele.
Então, você escondeu as minhas palavras embaixo do travesseiro pra que não fugissem.
Você não me disse muitas coisas.
Então, eu tive que escrevê-las ou desenhá-las.
Você atingiu todos os meus poros.
Então, eu tentei arduamente enxergar além dos flocos de neve na sua retina.
Você inventou novas luas, novos sóis.
Então, eu tive que acreditar nos astros.
Você coloriu palavras, desmitificou outras e duplicou milhões de sentidos.
Então, eu desisti de todas as lógicas e voltei ao meu país de origem.
E você nunca soube de nada, você ainda não sabe de tantas coisas.
Então, sem saber exatamente por quê, eu deixei que você soubesse.
E você desde então.. costuma deixar as malditas moedas ou qualquer coisa assim, para eu não esquecer.

Wanted


As vezes o que te resta é uma lágrima seca atracada na garganta, mas é uma lágrima instintiva, que saí sem buscar qualquer explicação plausível.
Talvez, ela venha em função de um desejo frouxo de ter trazido o objeto raro que te protegeria da noite.
O meio sorriso que por vezes saí dos rostos submersos em diáfanas nuvens de maio, não é de singela alegria mas de constante resignação.
Mesmo as palavras tingidas por rubra tinta são medidas falhas nesse calendário torto.
E eu perdi a mão, o bonde, mas não a esperança.
Dias haverão em que andando pelas ruas sonolentas, poderei eu destinguir uma pressa de um anseio e quebrar as métricas da minha cabeça.
De todos os remédios, a tua solidão foi o que mais te ardeu a garganta, o que mais te fez perder o ar e gemer em cólera. Sei que não se pede para ser hipocondríaco, mas quando se o é.. nenhum sentimento externo te salva do azedume que vigora em sua bile negra.
Bem, eu poderia ter avisado, mas eu já não poderia exprimir, estando no ato III, a verdade que faria suas pálpebras estremecerem em convulso choro.
O que me cabe é só esse senso de superioridade anônima, de remetente de cartas com endereço suspeito e de ser sempre a procurada por crimes que não cometi.
E o que me cabe, me faz feliz.
E o que me faz feliz é estar sempre em fuga, em agonia, esperando mais e querendo que esse mais nunca escape.
A lágrima rola frágil, como minha alma escorregadia e na fragilidade das almas, viceja a poesia, a prosa e a raíz de todas as canções.
A fragilidade faz existir vida e a vida (em si) determina o destino de todas as lágrimas.

Bolhas no purgatório


Passei por algumas luas tentando decifrar códigos e toda a sorte de sistemas metalinguísticos.
Briguei com Saussere, fiz e desfiz laços.
Eu vi a morte, o asfalto, as feridas apodrecidas e chorei sem emitir som.
Eu quis a dor, lancei-me sem mandamentos em seus braços.
No abismo, a providência deu-me asas rubras.
Morreu em mim um pouco da poesia silenciosa com que me alimentava, tal como beija-flor na seiva.
Não fiz madrigais, odes, canções, sequer trovas.
Abandonei as Hespérides, adentrei o Hades, o Valhala.
Sorri para máquinas.
De frases mal formuladas e sem coesão e coerência bebi epopéias.
Descobri países no mapa e nomes para o vento, e mais..
Descobri imagens para os azulejos do chão e animais para os ladrilhos do céu.
Queimei karma, ouvi teorias adversas, rompi auroras, bebi sereno e néctar na madrugada das almas.
E a náusea não atormenta mais.
Mas o que sinto e é intrínseco e inerente a minha condição de criatura errante, simplesmente não tem nome, nem cor.. não tem textura.
É como um purgatório de horas, mas dentro do paraíso.
Eu não quero que me vejam, eu não quero vê-los.
É como não terminar uma canção, tendo o intento de fazê-lo.
E todos vem a música, ouvem a paisagem sublime e amarela ao redor, multifocal, sólida, real.
Mas eu, vejo as bolhas azuis ao redor, isso ninguém nunca verá.

Do Extático ao Caos


Talvez eu não tenha inteligência suficiente para escrever um tratado sobre a cólera e talvez eu nem queira ter.
Talvez eu esteja apenas esperando por ondas de alta frequência de uma descarga elétrica.
Talvez eu nem saiba o que isso quer dizer.
Talvez  eu tenha sentido falta do vento.
Talvez eu tenha alimentado-me este tempo todo de auto-piedade e da caridade alheia.
Talvez tudo o que eu digo seja uma tentativa inerte de preencher os espaços em branco.
Talvez eu esteja pintando um mundo surrealista ao meu redor.
Um mundo visto sob a ótica de Magritte.
Talvez eu esteja erguendo essas muralhas apenas com meus dedos em chagas.
Talvez eu devesse parar de transformar tudo em cinzas.
Talvez eu devesse colher as flores azuis e perseguir os pássaros lúgubres.
Talvez fosse melhor eu ter virado a esquerda.
Talvez fosse melhor tapar os ouvidos em meio a algazarra.


Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.
Talvez fosse melhor não sentir.


Talvez fosse melhor não repetir,
Não mistificar,
Não sangrar,
Ou sangrar.. apenas no silêncio da minha garganta.
Talvez eu pudesse vencer meus espaços e elevar-me.
Subindo e planando até onde os olhos e sóis se dividem em moléculas soberbas e humildes,
Soberbas porque nelas está a miragem da vida e humildes porque são infímas diante da besta-fera do mundo.
Subir sem pensar na Terra, este casulo do infinito.
Elevação.
Sem pressionar o tempo pra pensar que depois os relógios enloqueceram,
E eu estarei com as mãos tintas, podres, disformes e famintas.
Escavação.
Pare de mexer com meu espaços extáticos.
Só.
Talvez.

Isqueiros


Ela não era uma mulher.
Não era um homem.
Percebo hoje, que ela gostava de cultivar certos maneirismos andróginos.
Ela gostava de marrom, embora seus olhos fossem poças petrolíficas.
Ela lia e translia Rimbaud, mas gostava de dizer que os franceses eram uns porcos impertigados.
Manchas na parede eram suas contadoras de fábulas, e como dizia a fábula...
Ela queria conhecer Sherazarde, muito embora eu pense que ela sempre quisera ser Sherazarde.
... Ou Verlaine, ou Napoleão, ou Lennon...
Todos eram seus joguetes típicos.
Um dia, eu a conheci.
Ela não tinha cores estranhas no cabelo e nem fedia a esgoto, mas é como se a sensação fosse essa.
Ela pediu-me fogo e eu a olhei por trás dos óculos naquela noite de neblina e ela piscou os cílios antes de encarar o ar frio.
Soltando uma baforada profana, ela semi-sorriu pra mim, antes de pegar o isqueiro e acender o cigarro com grandes ares de agente da máfia italiana.
Agarrei meus braços e acarinhei o frio volúvel.
Ela? Simplesmente largava-se no gosto de tragar.
E tragava com fúria, como não o faria nenhuma dama, como só faria um outro homem.
"A noite é sempre assim aqui?" - Ela perguntou-me com os olhos apertados pela nicotina.
"Assim como?" - A encarei reticente.
"Tão sem esperanças...?" -Ela suspirou grave para em seguida quebrar-se em uma gargalhada desproporcional ao ar austero e enfadonho da noite.
"Onde está indo?" - Perguntei depois do inesperado estouro.
"Não sei... quê me importa?"
Ela fez-me cativo ali.
A acompanhei naquela viagem.
Em todas as demais provavelmente.
Ela fumou muitos cigarros e eu comprei uma coleção de isqueiros.
Pouco me importava seu ar esquiziotípico, sua figura andróide-andrógina, se ela vestia-se como um cara desleixado, seu mau-humor e seu mistério latente.
Depois de sair da terra das mil e uma noites sem esperanças, eu a deixaria ser o quisesse.
Sherazade, Verlaine, Napoleão, Lennon.
Desde que eu pudesse segui-la e ser seu sultão, seu Rimbaud, sua Josephine, seu McCartney... ou apenas o fogo do seu cigarro barato.

Caminho Reto



Diziam que ela deveria se prevenir, usar casacos pesados e fugir das sombras que broqueavam o caminho.
Diziam que ela deveria ter fleuma, andar sobre ovos e manter a voz calma.
Nunca lhe disseram que o caminho poderia se bifurcar, nunca sequer pensaram que ela poderia escolher por vontade própria se ferir.
Então, ela escreveu sobre o amor e sobre como os homens enrolavam-se em dedos e sílabas para amar seus iguais, ela escreveu sobre uma curva, escreveu sobre a pessoa que a estaria esperando quando lá chegasse e no que ela mesma seria quando a encontrasse.
Mas era seu compromisso ser fiel a métrica e a rima, então ela chorou.
Porque nunca houve alguém na curva, tudo existia nas linhas mal traçadas de alguém condicionado a inventar a imagem mais bela.
E por achar bela a tal imagem, ela pensou que convenceria os outros, ela acreditou que os outros diante da perfeição a amariam por tê-la criado, mas nada parecia ser menos que disfuncional e violento para ela.
Ela jurou que não acreditava em nada que escrevia e continuou escrevendo cartas sem destinatário, continuou pintando seu rosto e enxugando seu pranto ressecado e sorrindo para a luz branca, brindando a todos com palavras de prodigiosa verdade, que eram todas mentirosas e desesperadas, porque pediam um ouvido que nunca existira.
Acolheu-se então no calor inapropriado de alguns braços, na luxúria provínciana de rapazes sonolentos, na caridade dos justos.
Em meio a turba de semelhantes indigestos, ela alimentou-se, e todos os restos de ternura eram como última esperança em mar de apatia.
Ela aprendeu que nunca poderia alimentar qualquer ideia de que a beleza tinha outro fim que não a morte, a morte... a morte era sua conhecida de longa data, sua amiga, seu pão, seu veneno lento e corrosivo.
Ninguém poderia jamais entender a vida sem encarar a frio os olhos âmbar da morte.
E tudo morria nela, como o sol que debanda ao entardecer e nos deixa com um gosto vazio do que seria a eternidade.
A curva que nunca chegaria, a fez parar no meio do caminho e aquela que quis muitas pessoas em uma só, terminou servindo chá para seus leitores invisíveis e mudos.

Ofélia





"É que algum vento montanhês da Noruega contou que a liberdade é triste, mas é leve." - Ophélie - Arthur Rimbaud.


Era noite alta quando a pálida Ofélia levantou-se de seu leito casto para encontrar a doce proteção da lua.
As coroas de flores multi coloridas pendiam de suas mãos delicadas e o ar diáfano da noite balançava seu vestido de cambraia com o vento furioso que soprava da Noruega para a Dinamarca.
Ouviam-se pássaros noturnos, como harpias cantando no abandono da escuridão.
A bela e gentil Ofélia, finalmente livrava-se de sua alma pesada e suja e frágil.
No braço escuro das sombras noturnas ela via a face da Deusa e sentia seu espírito voar no manto de estrelas abandonadas no palco do céu.
Ela queria dançar como uma Ninfa, ela queria sugar o néctar do fruto proibido como Perséfone fez quando no Hades, ela queria lançar-se as águas como Narciso.
Com os olhos transtornados, ela se aproximou do lago de águas verdes que ficava embaixo de um salgueiro chorão, ainda fitando seu rosto fantasmagórico no espelho d'água, julgou ouvir voz rouca e danificada de seu pai ao longe, julgou ouvir um último grito lúgubre de adeus que logo cessou.
Juntando suas coroas de flores... rosas, violetas, arrudas, amores-perfeitos, violetas.
“ Como pode alguém com violetas na mão ser triste?” perguntou ela para um coruja.
Agarrando com delicadeza as coroas que lhe caiam das mãos, ela subiu até o ponto mais alto do salgueiro, cantava antigas canções proféticas, canções de tremer o céu e de fazer chorar os anjos do paraíso e as dríades que habitavam as árvores e urbes do bosque esquecido.
“Ele se foi, não voltará, de linho branco era sua cabeleira, baixem as tampas, ele não voltará”
A cada gota de sua canção, sua voz enfraquecia e virava um ganido gélido preso em sua garganta áspera.
Sua alma que voava mais além queria pertencer aquele lugar sacrossanto, aquele lugar pagão, livre e mesmo assim maldito.
“Minha alma vai com o rio, vai além do rio”
E como Zéfiro era seu amigo de longa data, o ventou suspirou apenas uma vez, antes de entregar a bela donzela aos cuidados das nereidas do lago profundo.
Os vestidos como velas afundavam e sugavam a doce criatura, qual ninfa, ela parecia dada ao elemento e com toda a suavidade que fora sua vida, seu sono eterno não foi um suícidio e sim o adentrar para um mundo edílico, onde qual rainha das flores, ela flutuava em um carro puxado pelas mais belas criaturas do lago.
Seu amor aviltado, sua dor dilacerante, ficaram na superfície do lago silencioso que em seu berço guardava a formosa Sílfide.
As pessoas que vieram depois nunca mais saberiam o que é beleza, porque a beleza havia se matado naquela noite nas montanhas da Dinamarca.

Minha Embriaguez



Cá estou,
Na companhia dos meus convivas;
Os velhos e os novos poetas.
E tudo o que guardei foi uma caixa com as coisas que levarei quando partir.


Cá estou,
tentando entender porque pra mim as letras ganham cores e texturas.
Vogais?
As preciosas vogais, tão engalanadas, galantes.
Mesmo a água que desce em fio pela minha garganta tem um som particular.
Eu tento escrever palavras que me façam voar,
Mas o efeito é o reverso.
Elas me aprisionam e levam-me a forca.
Velhas companheiras de viagem, não?


Tudo o que quero, no entanto,
É que as palavras não me abandonem.
Desde que ergui um panteão à poesia,
A quero em sua forma mais humana e bestial.
A quero como sarça ardente que ao queimar também clareia as pálpebras,
A quero porque quer ver.

Champanhe Para Dois



Eu pensei que bastava colocar meus sonhos numa garrafa vazia e  estariam para sempre protegidos pelo mar, mas e novo, eu errei.
O meu mar, era feito de vinho tinto. Quem dera fosse sangue!
Quantas vezes estive aqui e quis sangrar, mas minha pele árida era tão ébria e inútil que sequer servia para fonte de martírios?
Quantas vezes sentindo as náuseas de existir atingirem-me fundo, não quis me entregar a voluptuosidade do mar?
Resta-me agora, há poucos dias de deixar de ser, a vaga impressão de que serei um reflexo rápido na mente embriagada de alguém. E tenho por companhia, uma mesa, dessas sérias, de madeira pesada e antiga, com areia nos pés e uma taça de champanhe na mão caída.
O cabelo que adorna meu rosto, é ralo.
A sobra que tenho dos dias, é pouca.
A vontade de certa voz, existe.
Sobre os ombros o peso da felicidade que não quero ter, a ingenuidade de querer ter o que me era de direito. Só e sem querer, muda.
Peço outra taça, o céu desce em mim, não estou só.
Chamo os fantasmas pra ficarem o resto da noite e deito a minha cabeça sobre a mesa.
Quando acordar, o infinito azul de olhos breves terá acolhido a garrafa onde depositei os sonhos que nunca tive.

Reinventando o Inferno


Abaixou a cabeça.
Seria bom se sangrasse. - Pensou.
O sangue é real e sempre sangue, ele não é mutável, só aquoso, espesso, as vezes, grosso e insuficiente.
Sangue é só sangue, sem ambiguidade.
Voltou a olhar a mão, balançou os cabelos, eliminando a cortina de fios ralos dos olhos, queria dormir.
É a dor de ver que o deixava com os pés em chamas e a dor de saber o que se é sem o ser.
Só a queda lhe era verdadeira, só a perda lhe era intelígivel.
O erro do mundo, a falta de verdade na poesia, a queda do alto da torre da cidade dos pecados que criara.
Queria que os verbos comessem-lhe a carne para que não tivesse que perder a delicadeza lidando com seu pequeno negócio ilegal.
O mar não era mais o que queria, a chuva caía porque era de lei que caisse, ele sofria porque algum poeta sádico dissera em algum café parisiense que sofrer era bom, nada ali era real.
Começando por sua figura patética, catando no ar as sobras de afeto e vergonha, mas deixando-as cair pelo tapete sujo, emparelhando-se aos ácaros no chão.
Desistiu do sonho da criação. Era só mais alguém em um novo lugar que queria recriar um mundo que não valia a pena e se julgava especial por isso. Oras! Conclusão óbvia: Se não entendo o mundo, então sou superior a ele, se não consigo seguir as regras de convivência e ser tão senhor quanto todos os meus iguais, logo sou um gênio.
No entanto, em todas as suas borrascas de inspiração, tudo o que fazia era copiar e morrer.
Morria a cada palavra, a cada linha que sangrava de seu pulso dorido.
Morria porque viver é morrer devagar e porque é por amar o mundo natural que se vive querendo a morte, porque o mistério dos seres vem daí.
As grandes orgias da consciência, o cosmos da inteligência, a superioridade de sua imaginação, o repúdio pelas práticas sociais, tudo só existia porque querendo recriar o amor, ele recriou o inferno e seu ar azul.

Quando Alice Não Voltou


Decidi passear dentro de mim.
Sem esquecer, é claro,  de carregar um guarda-chuva, a maior proteção que devemos ter a mão para lidar com os sentimentos externos.
Andei até  meus pés não sentirem mais a dor de andar e fui parar na frente de uma casinha, cercada por um exército de gafanhotos que bebiam leite com mel.
-Você vai se perder, Alice. E lembre-se de avisar aos tolos de pedra de que nada aqui é real e que a meia noite, talvez, eles ouçam o canto de uma pássaro negro ou uma melodia ao contrário.
-Isso deveria ser tão irônico... - Eu balbuciei de dentro da minha vergonha de estar dentro da minha própria garganta.
Os gafanhotos deram-me um sinal de partida e diante dos meus olhos afoitos, transformaram-se em besouros prateados, espécimes raros aqueles.
Continuei procurando dentro de mim mesmo, o fel com o qual, constantemente, eu me martirizava e  onde eu escondia minha óbvia falta de sorte e visão.
Haveria de estar em algum lugar!
Um homem carregando uma pequena flauta seguido de um sátiro bem munido de um alaúde censuraram-me por estar atrasada para o casamento.
-Que casamento? - Eu perguntei distante, como se não estivesse dentro de mim.
- O casamento, menina tola, só existe um. - O homem disse, antes de soltar uma nota impetuosa de sua flauta.
- Só acontece um casamento por ano e infelizmente é o errado, você não sabe escolher!- Continuou o sátiro a exemplo de seu companheiro, tirando dessa vez, um trecho melancólico de seu alaúde.
-Eu estou perdida, só sei que comecei com uma viagem pela minha garganta, mas continuei descendo e vi gafanhotos estranhos, nem sei que casamento é esse, meus senhores. - Eu tenti formular alguma coerência dentro da incoerência na qual havia me absorvido.
-Você gosta de preto? - O Homem.
- Claro que não, seu imbecil, ela está vestida de vermelho. - O Sátiro.
-  Ela está com as cores de Ares! - Um sorriso do Homem
-Porque hoje é o dia de Ares, estúpido!! - Um revirar de olhos do Sátiro.
- Eu suponho que tenham escrito meu nome primeiro para eu ser o chefe, não? - O Homem.
- A estória ganha o rumo que quiser, como as estradas que levam a Igreja do casamento.- O Sátiro.
- O CASAMENTO! Estamos atrasados, muito atrasados, tudo bem, garota, ache um vestido preto e esteja o quanto antes na Igreja. - Os dois.
- Mas como acharei um vestido e que caminho devo tomar, onde ficam essas estradas?- Eu.
- As estradas estão em todo o lugar, mas você deve saber onde deve saber a onde quer chegar, adeus, menina tola.! - o Sátiro sorriu enigmático.
    De repente arrastaram a poeira das botas no vento e nunca mais se ouviu falar deles, ou fui eu quem nunca mais ouvi?
     A frente de uma carroça abandonada, achei um vestido de feltro, preto e sóbrio.
Achei bem apropriado para o casamento, mas uma ideia não me abandonava de todo, por que diabos as pessoas deveriam ir de preto, oras, isso era casamento ou uma comitiva de enterro?
-Os dois, minha filha.
    Respondeu-me da escuridão, uma ave de coloração esverdeada.
Meu susto foi tamanho que deixei cair o vestido que imediatamente aderiu a minha pele sem que eu precisasse vesti-lo.
-Estranho...
- Já escolheu o caminho, menina Alice? - Ela sorria como uma avó.
- Falta-lhe os óculos. - Eu não pude me impedir de falar.
    Imediatamente um par de óculos pousaram em seu rosto, aparados por seu longo bico.
- Tudo o que quiser, minha cara, afinal, tudo isso também é seu, estamos dentro de você.
-Como você sabe?
- Eu sei de muitas coisa, Alice, como sei, por exemplo, que você quer ir ao casamento  e não sabe que caminho tomar.
-De fato. - Reconheci, pela primeira vez sentindo carinho por “alguém” dali.
- Simplesmente siga, vai reconhecer o caminho quando chegar lá.
    Eu fiz o que a sorridente ave avó de óculos me disse, desci, desci, desci, sem escadas, sem descidas, sem ladeiras...
Até que passei por um campo aberto, parecia uma página extraída do Kamasutra, havia ali um enorme gigante andrógino deitado, sua face e sua posição indicavam que estava num momento de êxtase e homem e mulheres copulavam em suas coxas, subiam por seu peito e deleitavam-se em sua genitália dupla.
Quando cheguei mais perto, alguém quis me puxar para juntar-me aos meus próprios delírios, respondi que não, que tinha de chegar ao casamento.
O garoto despido e orgulhoso de sua nudez indicou-me um atalho, no qual, eu encontraria um objeto voador vermelho.
Já dentro do objeto, acionei diversos botões, um deles haveria de ser o certo.
Depois de um vôo tímido, entrei na estrada certa, ou seria a errada?
Naquela altura da minha viagem, não importava mais.
Avistei uma grande catedral com sombras góticas, sua fachada estava enfeitada com flores negras e vermelhas.
Um árvore carregava a seguinte inscrição “ aqui morre o amor”, fiquei com medo de continuar, mas segui, mesmo temerosa.
 Havia poucas pessoas na Igreja, um total de 9, além do padre e dos noivos.
A moça exibia um sorriso angelical, mas meu peito queimava, não era justo.
O moço parecia pensar como eu, assim como todos os presentes.
Letras de música atravessavam meus olhos, melodias de Bach, Chopin e também o som cálido dos pássaros de inverno.
    Então.
Não foi nada além de um olhar vazio e doente pousado numa xícara de chá, e a esperança de entender morrendo ali.

Quiça



Eu vou vivendo como o dia vai sumindo,
sem perguntar porquê.
E se um dia por acaso, me perguntarem,
direi que tenho orgulho de não saber.
Porque a ideia que faço de saber vai além do que posso ser.
E esse ser que é coisa atoa,
que vira vexame, sem nunca deixar de o ser.

Vou levando na face,
a falta de cor,
o céu verdejado,
o desleixo e o frescor.
Porque nada no mundo cresce por saber,
E que não cresce, tampouco sabe.
Ah! Deixe de lado a falha da rima mal feita!
Quem me dera só passar e dizer... Quiça!

ahn?

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